O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já defendeu que o governo aumentasse o valor do Bolsa Família mesmo em um período de forte disputa política e às vésperas das eleições. Em 2021, quando Jair Bolsonaro (PL) comandava o país e discutia elevar o então Auxílio Brasil para R$ 400, Lula afirmou que o benefício deveria chegar a R$ 600 e rejeitou a crítica de que o aumento poderia ter finalidade eleitoral.
A declaração voltou ao debate político após o governo Lula anunciar, nesta quinta-feira (17), um reajuste de 15,04% no Bolsa Família, justamente durante o período eleitoral de 2026. Com a mudança, o valor mínimo passa de R$ 600 para R$ 691, enquanto o benefício médio sobe de R$ 675 para R$ 777. O novo valor começa a ser pago na folha de outubro.
Em publicação feita em 2021, Lula afirmou que havia ouvido Bolsonaro anunciar o pagamento de R$ 400 e mencionou as críticas de que a medida seria uma estratégia eleitoral. “Tem gente dizendo que é auxílio eleitoral, que não podemos aceitar”, escreveu o petista.
Na sequência, Lula discordou dessa interpretação e afirmou que o PT já defendia um benefício de R$ 600. “Não penso assim. O PT defende um auxílio de R$ 600 desde o ano passado. O povo precisa. Ele tem que dar. Se vai tirar proveito disso, problema dele”, afirmou.
Veja a publicação
Tô vendo o Bolsonaro dizer agora que vai dar R$ 400 de auxílio. Tem gente dizendo que é auxílio eleitoral, que não podemos aceitar. Não penso assim. O PT defende um auxílio de R$ 600 desde o ano passado. O povo precisa. Ele tem que dar. Se vai tirar proveito disso, problema dele.
— Lula (@LulaOficial) October 20, 2021
Cinco anos depois, o cenário se repete
A fala de Lula ganha novo peso em 2026 porque o país novamente está em período eleitoral e o governo federal acaba de anunciar uma ampliação do principal programa de transferência de renda do país.
Desta vez, porém, Lula é o presidente da República e candidato à reeleição. O reajuste foi anunciado 17 dias antes do primeiro turno, marcado para 4 de outubro.
O governo sustenta que a correção recompõe a inflação acumulada pelo INPC desde março de 2023 e que o reajuste está previsto no orçamento. A medida terá impacto estimado de R$ 5,8 bilhões em 2026.
A oposição, por sua vez, questiona justamente o momento escolhido para a atualização.
Flávio Bolsonaro critica reajuste
Durante agenda em Vitória da Conquista, o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) classificou o anúncio como uma “falsa promessa de campanha” e acusou Lula de agir por desespero eleitoral. “Faltando 17 dias para a eleição, ele acha que vai enganar alguém dando reajuste no Bolsa Família”, afirmou.
O argumento da oposição contrasta com a posição adotada por Lula em 2021. Naquele momento, o petista defendia que o governo Bolsonaro aumentasse o benefício mesmo diante da possibilidade de o adversário obter dividendos políticos com a medida.
A diferença é que, naquela ocasião, Lula estava na oposição. Agora, está no comando do governo e disputa novamente a Presidência.
Reajuste é questionado na Justiça Eleitoral
O deputado federal Zé Trovão (PL-SC) também levou o caso à Justiça Eleitoral e pediu a suspensão do reajuste, além da cassação do registro de candidatura de Lula.
O ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), extinguiu a ação sem analisar o mérito por entender que o parlamentar não tinha legitimidade para apresentar o questionamento.
Na decisão, Mendonça ressaltou que a extinção do processo não significava uma conclusão sobre a legalidade ou constitucionalidade do reajuste, nem sobre eventual enquadramento da medida nas condutas vedadas pela legislação eleitoral.
O episódio recoloca em evidência uma declaração feita pelo próprio Lula em 2021: para o petista, o fato de um aumento no benefício ocorrer próximo de uma eleição não deveria, por si só, impedir a medida. Na ocasião, resumiu a posição dizendo que, se Bolsonaro tirasse proveito eleitoral do reajuste, “problema dele”.

