‘Pode ter certeza que alguém do PT vai vazar a prova do Enem’, diz Bolsonaro

    Durante café da manhã, em Davos, esteve em pauta críticas à imprensa, comentários sobre o poder das redes, dólar e situação da Venezuela

    Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agencia Brasil

    Em um café da manhã ao lado de assessores, do chanceler Ernesto Araújo e do filho Eduardo Bolsonaro (deputado federal pelo PSL-SP), o presidente Jair Bolsonaro tratou de assuntos polêmicos, que foram vazados pela reportagem do Estadão nesta quinta-feira (24).

    A equipe acompanhou toda a conversa que ocorreu nessa quarta-feira (23), em Davos, por cerca de 20 minutos. Em pauta, assuntos estratégicos, críticas à imprensa, comentários sobre o poder das redes, futebol, dólar, a situação da Venezuela e até mesmo perguntas sobre a ortografia de palavras.

    Quando um dos assessores de Bolsonaro chegou para o café, o presidente comentou ironicamente: “Viu os pobretões que estavam na minha mesa ontem?”, provocando risada geral.

    Ele se referia ao fato de que, na noite de terça-feira (22), o jantar de abertura do Fórum incluiu em sua mesa o presidente da Suíça, Ueli Maurer, a rainha Rania, da Jordânia, o fundador do Fórum, Klaus Schwab, o presidente da Apple, Tim Cook, a rainha Mathilde, da Bélgica, e o presidente da Microsoft, Satya Nadella.

    Parte do debate se concentrou na reação dos mercados e da imprensa sobre seu discurso em Davos, feito na terça, e que foi o mais curto já pronunciado por um presidente brasileiro no evento. “Tem cinco dias de alta (do dólar) e dá uma baixadinha e já dizem que é o discurso”, se queixou Bolsonaro, em referência à moeda.

    Araújo destacou, de forma elogiosa, como dois jornais estrangeiros tinham dado destaque a certos trechos da fala , enquanto o resto da comitiva reclamava de que, no Brasil, foram as críticas que dominaram. “E no Brasil dizem que eu me equivoquei ao falar das florestas”, protestou o presidente.

    Ao longo da conversa, um dos pontos centrais foi o poder das redes sociais e comentários sobre como o governo deve se comportar nesses meios. “É outro idioma”, insistiu um dos assessores. Eduardo alertou para o fato de que “muita gente nem lê o que postamos”. “Olham a foto e já comentam, sem nem ler. Acho que apenas 5% das pessoas de fato leem o que se escreve”, disse. Instantes depois, ele perguntou ao grupo: “Trilionário e bilionário têm (a letra) H? Não, né?”.

    Ao terminar o café , a reportagem se aproximou do presidente. Questionado se comentaria a situação de seu filho, Flávio Bolsonaro, o presidente virou as costas e disse que “não”.

    Enem – A conversa então migrou para a situação do Enem. “Pode ter certeza que alguém do PT vai vazar a prova”, disse Bolsonaro. “Vai vazar”, repetiu, insistindo para a facilidade que seria “tirar uma foto”.

    Nesta semana, o governo Jair Bolsonaro tornou sem efeito a nomeação de Murilo Resende, que assumiria a coordenação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), e o nomeou para o cargo de assessor da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (MEC).

    Ex-ministro da Educação na gestão petista, Aloizio Mercadante disse, em nota, que as acusações eram inaceitáveis. Com informações do Correio Braziliense.

    Confira na íntegra a nota do ex-ministro da Educação, Aloízio Mercadante

    É inaceitável a acusação do presidente, Jair Bolsonaro, de que “alguém do PT vai vazar a prova” do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Uma política de estado já consagrada e fundamental na vida de milhões de brasileiros deveria ser tratada com maior responsabilidade pelo presidente da república.

    O Enem é realizado e organizado por servidores de carreira do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Bolsonaro deveria se lembrar que foi o esforço de um corpo técnico competente e responsável do referido órgão que o permitiu que o Enem se consolidasse como o 2º maior exame de acesso universitário do mundo,  atrás apenas do exame chinês. 

    Não se pode reescrever a história. Por isso, Bolsonaro não pode negar que foram os governos Lula e Dilma que transformaram o Enem em um grande caminho de oportunidades, especialmente para os mais pobres. Um exame republicano que permite que com uma só nota qualquer brasileiro ou brasileira dispute vagas em condições de igualdade para diversos programas com o Sisu, o Fies, o ProUni, o Sisu e a política de cotas. 

    Apesar de o PT estar fora do governo há 3 anos, foram nas nossas gestões que implementaram importantes aprimoramentos na gestão do Enem, tais como:  melhoria na segurança, pontos de controle, articulação com autoridades de segurança pública, parcerias estratégicas com Ministério da Justiça e Polícia Federal, que permitiram, no passado, a identificação imediata de qualquer tipo de fraude, entre outros. 

    Se o presidente procurasse se informar mais sobre o Enem, saberia que as provas são impressas em gráfica segurança máxima com filmagem, que cada folha tem um código de barras específico, que são transportadas com escolta armada e em malotes com cadeados eletrônicos que permitem a identificação da hora exata em que foram abertos e o rastreamento dos responsáveis que os abriu. Ou seja, implementamos procedimentos de segurança, baseados no que há de mais moderno em tecnologia para impedir fraudes. Desde a elaboração, até a realização e correção, o Enem possui 11 módulos de segurança e mais de 3,6 mil pontos de controle.

    Bolsonaro deveria elogiar os servidores que construíram essa história de sucesso, não colocar em suspeição uma política de estado de reconhecido êxito para tentar impor uma ideologia obscurantista na educação. Neste momento,  Bolsonaro e sua equipe no MEC deveriam estar procurando respostas para os recentes problemas nas matrículas do Sisu, que apresentou problemas de instabilidade no sistema e divulgou notas de corte parciais antes do prazo definido.

    A ideologização do Ministério da Educação e a política de fake news do governo Bolsonaro, seguramente, colocam em risco não só o Enem, mas  toda a política educacional brasileira. Nosso legado para o Enem é a construção de um caminho de oportunidades, que vem sendo realizado sem qualquer incidente de segurança, mesmo após termos deixado o governo.  É evidente que uma prova que envolve mais de 5 milhões de participantes envolve riscos, como demonstra o histórico do Enem, mas foi a experiência construída ao longo de nossas gestões que permitiu que o exame transcorresse sem qualquer incidente grave desde 2012 e que possibilita a imediata apuração, identificação e responsabilização dos envolvidos em possíveis fraudes.