Ninguém e (é) Alguém
Mitologia grega pode ajudar a entender a odisseia do Brasil para superar um dos períodos mais turbulentos da história recente

Ninguém é culpado pela grave crise brasileira decorrente de uma nova matriz econômica adotada nos últimos anos que conduziu o país à beira do precipício, com elevação da inflação, redução da atividade produtiva e amargo crescimento do índice de desemprego.
Ninguém tentou encobrir, ilegitimamente, a realidade que apontava “fortes ventos contrários vindo de todas as direções” contra a economia brasileira. Ninguém disse nada sobre a perspectiva de que o brasileiro enfrentaria arrocho no crédito, inflação alta, deterioração do mercado de trabalho, aumento de tarifas públicas e de impostos, e tendência de elevação do endividamento das famílias brasileiras.
Ninguém, mais uma vez, disse nada e todos os apoiadores do governo insistiram num discurso superficial sobre a realidade brasileira sem assumir que se as recessões são economicamente dolorosas, as depressões são como arrancar dentes financeiros sem anestesia.
Ninguém nunca revelou, corretamente, que a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 eram grandes armadilhas que consumiriam enormes recursos financeiros dos brasileiros, mesmo num tempo de crise econômica. Será que ninguém pensou que chegaríamos à beira dos jogos olímpicos com greve na saúde, com surto de zika vírus e epidemia de microcefalia, com atletas assustados e com escalada da violência? Ninguém nunca teve, de fato, uma política de segurança estruturada e perene, nem cuidou de evitar o lamentável episódio de adolescentes coletivamente vitimadas.
Ninguém abandonou o que poderia e deveria ter sido feito. Abandonamos as reformas da educação, do serviço público, tributária, da desburocratização e política porque ninguém queria mesmo assumir o natural desgaste de fazer o que tem de ser feito. Pior, toda vez que alguém dizia que precisava fazer… A resistência era imediata: ninguém precisa fazer nada!
Ninguém fez nada, a não ser lutar
para que tudo continuasse como estava
Ninguém deveria assumir que financiamos incorretamente países aliados ideologicamente sem compensações minimamente adequadas no campo internacional. Ninguém disse nada ou se importou com a legítima crítica preferindo qualificá-la unicamente de golpista. Sobre mensalão e petrolão, quem deveria ter tomado providências enérgicas e adequadas ao invés de defender os seus indicados? Ninguém.
O tempo foi passando e, novamente, o projeto de poder era maior que qualquer projeto de país. Ninguém queria cuidar dos seus comparsas, mas apenas demonstrar efetiva preocupação com o povo brasileiro, todavia com discursos artificiais e sem sustentação efetiva. O resultado foi a corrosão do Bolsa Família, do Fies, do Ciência sem Fronteira e de tantos outros.
Ninguém sabe. Ninguém viu. Mas ninguém fez nada a não ser “lutar” para que tudo continuasse exatamente como as coisas estavam. Enquanto na Europa as democracias se consolidaram, por aqui … Ninguém prejudicou a formação de instituições sólidas, nem nomeou juízes para servir a seus propósitos. Ninguém optou por capturar o estado brasileiro em torno de seus mesquinhos interesses.
Ninguém, agora, sabe mais nada sobre como vai ser o futuro do país, que foi depenado pela imoral forma de fazer política. Lamentável. Ninguém nada disse. Ninguém nunca se importou verdadeiramente com um país melhor. E, agora? Ninguém não tem o direito de reclamar.
Alguém se importa com tudo isso e trabalha todos os dias para, urgentemente, superar essa grave crise e fazer o país voltar a sorrir: a mulher e o homem comuns; o brasileiro trabalhador que já notou que ninguém, a não ser ele mesmo, pode efetivamente mudar o rumo das coisas. Não dá para confiar em ninguém, a não ser em você, sua família e sua labuta.
Post scriptum:
1) Para entender esse texto registro que nele há uma homenagem à mitologia grega. Há uma palavra que se repete propositalmente e se remete a um clássico. Numa das aventuras das Odisseias, Ulisses e sua tripulação são presos pelo ciclope Polifemo em uma caverna onde habita juntamente com suas ovelhas. Usando de esperteza, Ulisses embriagou Polifemo com vinho se identificou como Ninguém. Após cair no sono embriagado, furaram seu único olho com uma lança. Ao gritar de dor e pedir ajuda aos demais ciclopes vizinhos, dizia aos berros: “Ninguém me feriu. Ninguém me cegou!”. Ao ouvir essas respostas os ciclopes iam embora sem ajudá-lo.
2) Esse texto é um intertextualização de um artigo jurídico do professor Lênio.
Marcos Sampaio é advogado, procurador do Estado da Bahia, professor da Faculdade Bahiana de Direito e da Faculdade de Direito da Unifacs.
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