Publicado em 20/06/2024 às 12h01. Atualizado em 20/06/2024 às 18h27.

Bancada feminina se une para rebater fala de Átila do Congo: ‘Extremamente machista’

Vereadoras acusaram o colega de tentar silenciar as mulheres e cobraram posicionamento da bancada masculina

Jamile Amine
Foto: TV Câmara Salvador

 

A bancada feminina da Câmara Municipal de Salvador (CMS) se uniu em reação à fala do vereador Átila do Congo (PMB), que em sessão na quarta-feira (19), ao rebater Laina Crisóstomo (Psol), insinuou que algumas mulheres vítimas de violência doméstica são “irresponsáveis” por registrarem supostas falsas ocorrências de agressão.

“Hoje, a mulher pode tudo e o homem não pode nada. Hoje, se dermos um pio, é agressão. Se falar alguma coisa, somos julgados e sentenciados sem direito a ampla defesa e o contraditório. E isso está se estendendo para esta Casa. O argumento de fachada é o machismo. Fazemos um alerta para os homens abrirem os olhos. Vejo muitas cobranças de direitos e os homens sendo demonizados. Enquanto isso, estão encarcerando pais de família inocentes por motivo torpe”, disse o vereador, que preside o Partido da Mulher Brasileira (PMB) na Bahia.

A vereadora Marcelle Moraes (União Brasil) foi a primeira a pedir direito de fala para rebater o colega. “Eu gostaria aqui de registrar meu total repúdio ao vereador Átila do Congo, que teve uma fala extremamente machista. Quero saber quando uma mulher tem privilégio dentro de uma Casa onde ela é minoria. Quero saber onde uma mulher tem privilégio onde, em secretariado, ela é minoria, onde em espaços de poder ela é minoria”, argumentou a ex-secretária Municipal de Sustentabilidade, Inovação e Resiliência.

“É uma forma de tentar nos calar dentro de um espaço de poder onde nós somos eleitas pelo povo. Onde deveríamos ser maioria porque representamos, sim, a maioria da população. Mas infelizmente, hoje nós só somos oito, mais oito muito bem fundamentadas, porque aqui nós não estamos falando partidariamente. Estamos falando de uma luta de causa e uma luta séria”, disse Marcelle. Ela disse que ‘exige’ respeito à bancada feminina e às mulheres vítimas de violência, e ironizou a fala de Átila do Congo sobre suposta injustiça cometida contra os homens. “E se os tais pais de família estão presos, é porque foram dignos de estarem presos. Por cometerem crimes de agressão, estupros e outras coisas mais.”

A vereadora Débora Santana (PDT) citou experiências pessoais de violência doméstica ao repudiar as falas do vereador sobre supostas denúncias falsas contra os homens. “Cada mulher que for procurar a delegacia, não é o trabalho nosso, é o trabalho da polícia, de saber da situação que vai colher. Então, quem decide quem é culpado ou quem é inocente não somos nós. Mas a mulher que está indo, com certeza, foi vitima de alguma violência, e por isso que ela está lá. Quem vos fala é uma mulher que durante dez anos sofreu violência doméstica, que durante dez anos passou o pão que o diabo amassou na mão de um homem. E sei o que é ser enforcada, sei o que é ser queimada, sei o que é ser mal tratada. Mas, graças a Deus, Deus me trouxe até aqui e hoje eu posso, sim, defender a mulher da opressão e dos opressores que hoje tentam calar a voz de uma mulher.”

A presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, vereadora Ireuda Silva (Republicanos), também lembrou episódios de agressão que ela ter ocorrido em seu convívio familiar e repudiou as declarações de Átila do Congo. “Fui criada numa casa onde meu pai colocava a arma na cabeça de minha mãe e só não denunciava por causa de homens como o senhor, machistas, que desacreditam da vida que nós passamos. Quando o senhor for falar sobre mulher, o senhor tem que menstruar e entender o que nós representamos”, disse a republicana.

A vereadora Roberta Caires (PP) reforçou a crítica ao discurso do colega de Legislativo, disse que o tema do “machismo não se trata de uma causa partidária.”

“Acho que ficou muito claro aqui o posicionamento do vereador Átila do Congo. Acho que ficou evidente o que ele pensa sobre as mulheres e o que ele pensa sobre a Justiça. E aí eu queria deixar uma pergunta: então, se os homens estão sendo presos injustamente, se as mulheres estão indo nas delegacias denunciar, quer dizer que essa Justiça mente, ela não existe? E qual seria, então, o cerne, de que tipo de Justiça o senhor acredita e o senhor segue? Tenho muitas diferenças ideológicas da vereadora Laina, da vereadora Marta [Marta Rodrigues (PT)], mas o que nos une aqui é a causa das dores que a gente sofre por sermos mulheres e por estarmos aqui.”

Caires cobrou posicionamento da ‘bancada masculina’. “Eu gostaria de chamar a atenção dos 34 outros vereadores homens que estão aqui e que até agora nenhum se manifestou em relação a sua fala. Ou há uma conivência, ou há aí uma coisa velada. E eu gostaria que os nobres colegas vereadores, os 34, retirando o vereador Atila, que já expôs sua opinião aqui sobre o que pensa das mulheres vítimas de violência, se manifestassem e mostrassem pra toda a Salvador e a Bahia como que você se posiciona em relação a essa fala.”

Também se manifestaram as vereadoras Cris Correia (PSDB), Marta Rodrigues, e a própria Laina. A única mulher que não se pronunciou na sessão foi Kátia Rodrigues (União Brasil).

Procurado pelo bahia.ba, o vereador Átila do Congo disse por meio de sua asessoria que não comentará nada sobre o episódio.

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