Graduada e mestre em Relações Internacionais, com foco em Geopolítica; tem experiência em análises conjunturais para diversos institutos de pesquisa da PUC MINAS, Universidade Federal de Minas Gerais e Universidade de Groningen, na Holanda; já trabalhou na pesquisa e redação de clippings e notícias para a base de dados CoPeSe, parceria com o programa de Voluntariado das Nações Unidas.
Publicado em 23/07/2025 às 13h55.
Nova governança global é caminho para enfrentar alto preço dos alimentos
Um olhar sobre o recém lançado estudo do Centro de Supercomputação de Barcelona
Júlia Cezana

Um novo estudo liderado por Maximillian Kotz, do Centro de Supercomputação de Barcelona, revela que eventos climáticos extremos causados pelas mudanças climáticas, como ondas de calor, secas e enchentes, estão elevando os preços de produtos alimentícios básicos em todo o mundo. A publicação do estudo ocorreu pouco antes da conferência de balanço do Sistema Alimentar da ONU, que será realizada neste domingo em Adis Abeba (Etiópia), onde líderes mundiais irão se reunir para discutir as ameaças ao sistema alimentar global. O estudo, publicado na última segunda-feira (21), analisou 16 exemplos em 18 países ao redor do mundo e destacou que os aumentos nos custos de uma ampla variedade de alimentos se devem a condições climáticas tão extremas que superaram todos os registros históricos anteriores a 2020.
Vamos falar sobre chocolate por um momento. Gana e Costa do Marfim são responsáveis, juntas, por quase 60% da produção mundial de cacau. Uma onda de calor que atingiu esses países no início de 2024 e que, segundo cientistas, foi 4 °C mais quente por conta das mudanças climáticas, fez com que os preços globais do cacau subissem 280% no mês de abril.
Hoje, o mundo e o comércio internacional estão interligados. Ou seja, quando uma região produz menos quantidade de um insumo, os efeitos dessa bica na produção não ficam restritos ao país produtor, mas também em outras partes do planeta. Para além do cacau, o estudo sinaliza outros insumos que sofreram com eventos climáticos extremos:
- Cebola: +89% na Índia
- Arroz: +48% no Japão, em setembro de 2024, após uma onda de calor que foi a mais intensa desde o início dos registros regionais em 1946
- Azeite: +50% na Europa, após uma longa seca na Itália e na Espanha em 2022 e 2023
- Batata: +22% no Reino Unido, devido ao excesso de chuvas no inverno; e +80% na Índia, por conta de uma onda de calor em maio de 2024
- Repolho: +70% após uma onda de calor em agosto de 2024
- Alface: +300% na Austrália após inundações em 2022
- Café: +55% no Brasil, após uma seca em 2023
Para além da produção e consumo internos, como muitos desses produtos são exportados, o consumidor final sofre com o aumento dos preços. Por isso, falar sobre mudanças climáticas é falar sobre comércio internacional, globalização, e multilateralismo. De acordo com projeções do estudo, se as emissões continuarem no ritmo atual, o impacto do clima sobre os preços dos alimentos pode crescer até 50% até 2035. Maximillian Kotz, lider do estudo, destacou que “Olhando para o futuro, estamos cada vez mais diante de um mundo onde a volatilidade se torna a norma, resultando em uma crise permanente do custo de vida. Quanto mais demorarmos a enfrentar as mudanças climáticas com a urgência que elas exigem, mais essas questões vão nos impactar” .
Eventos climáticos graves afetam a segurança alimentar e a saúde local, impactando a produção, a disponibilidade, o acesso, a utilização e a estabilidade dos alimentos. Com isso, há uma alta nos preços, agravando, assim, as desigualdades já existentes no acesso à alimentação. O estudo destaca ainda que alimentos saudáveis já custam, por caloria, o dobro do valor de opções menos nutritivas. Como consequência, muitas famílias de baixa renda acabam reduzindo o consumo de alimentos frescos, o que aumenta a exposição a doenças relacionadas à alimentação, como diabetes, doenças cardíacas e câncer. Assim, quem mais é impactada por essa alta são as camadas menos favorecidas da sociedade.
Fato é que a mudança climática não é um problema ambiental isolado; seus impactos são sentidos nas esferas social, econômica e política. O aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos pode levar ao deslocamento de pessoas, à escassez de alimentos e à escassez de recursos. Esses impactos podem agravar desigualdades já existentes, alimentar conflitos e comprometer a segurança humana, especialmente em regiões vulneráveis.
E é por isso que as mudanças necessárias para reverter a situação em que nos encontramos hoje exigirão transformações sistêmicas nas estruturas de poder, nos sistemas de governança e na distribuição de recursos. Para além disso, exigirá esforços cooperativos e ações coordenadas e multissetoriais. Em um mundo com governos, políticas e discursos cada vez mais individualistas, o multilateralismo nunca se fez tão essencial. Os recentes desafios geopolíticos dos últimos anos não apenas exemplificam esse crescimento do unilateralismo, como também têm posto em xeque os esforços multilaterais existentes para combater a crise climática. No entanto, o tempo não para e agir se torna ainda mais urgente. Especialmente em tempos de fake news e negacionismo, onde tenta-se negar efeitos das mudanças climáticas e naturalizar algo que é de responsabilidade da sociedade. Mas não adianta negar: para além de sofrermos e vermos eventos climáticos extremos, toda ida ao supermercado é um infeliz e dolorido lembrete cotidiano dos efeitos das mudanças climáticas.
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