Publicado em 18/04/2026 às 18h50.

Socorro Acioli defende literatura nacional e celebra sucesso de ‘A Cabeça do Santo’

Escritora cearense analisa superação do rótulo de ‘literatura regional’ em entrevista ao bahia.ba na Bienal da Bahia neste sábado (18)

Raquel Franco / João Lucas Dantas / Anna Luiza Santos
Foto: Divulgação/Bienal do Livro Bahia

 

Em entrevista exclusiva ao bahia.ba durante a Bienal Internacional do Livro da Bahia, a escritora e jornalista Socorro Acioli refletiu sobre a evolução do mercado editorial e a desconstrução do rótulo de “literatura regional”, termo frequentemente usado em relação a autores do Nordeste, frente ao que é considerado “literatura brasileira”, geralmente associada ao eixo Rio-São Paulo. Segundo ela, para combater essa discriminação “o público leitor tem dado a melhor resposta possível” nas livrarias e feiras literárias do Brasil inteiro. 

“Muita coisa escrita por mulheres, por mulheres negras, por autores negros. O público tem dado uma resposta muito positiva para derrubar esse preconceito. Eu ainda sinto, não vou dizer que ainda não acontece, mas eu confesso que eu não me importo”, disse a autora antes de participar de um painel sobre os 40 anos da Companhia das Letras neste sábado (18) no Centro de Convenções de Salvador, no espaço Arena Farol. 

A autora relembrou que sua obra A Cabeça do Santo foi encaixada nessa categoria por críticos literários. “Quando o ‘Cabeça do Santo’ foi lançado, uma das críticas negativas que eu ouvi foi essa, que era um retorno para o romance de 1930 do Nordeste, que era mais um livro regional. O tempo passou e hoje o que mais se fala é de ser um livro brasileiro”, afirmou. 

O fenômeno de ‘A Cabeça do Santo’

Mesmo lançado há mais de uma década, em 2014, A Cabeça do Santo vive um momento de ápice comercial e cultural, inclusive com a confirmação de que será enredo da Unidos da Tijuca no Carnaval do Rio de Janeiro no próximo ano.

Socorro confessou não ter uma explicação para o sucesso nas vendas da obra, mas atribuiu parte do fenômeno à força recente da literatura nacional, citando como exemplo livro do autor baiano Itamar Vieira Junior. “Muitos de nós autores brasileiros fomos beneficiados com essa força que o Torto Arado trouxe para a literatura nacional”, explicou. A autora destacou que o livro é um “objeto vivo” e que a relação com os leitores se modifica com o tempo.

“Eu recebi uma crítica devastadora logo de cara. Isso ensina que a gente às vezes precisa de paciência, que o tempo que a gente quer não é o tempo em que as coisas vão acontecer”, afirmou.

Conselhos para novas escritoras

Aos novos nomes da literatura, especialmente mulheres nordestinas, Acioli recomendou focar na leitura, na clareza de propósitos e entender o cenário literário contemporâneo antes de ansiar por premiações. 

“Muita paciência, porque as coisas na no mundo literário são lentas, e muita clareza do que se quer. Escrever e concluir um livro é muito mais importante do que muitas outras coisas que as pessoas acham que são importantes, como prêmio e sucesso”, afirmou. 

Ela revelou estar no processo de finalização de um novo título e reforçou que “botar a história no papel é muito mais importante do que as outras coisas que vão vir depois”.

Indicações de leitura

Ao final, a autora de Oração para Desaparecer sugeriu três leituras que dialogam com a estética de sua obra:

Contos, de Murilo Rubião;
A Estranha Máquina Extraviada, de José J. Veiga;
Os Malaquias, de Andréa del Fuego.

Raquel Franco
Natural de Brasília, formou-se em produção em comunicação e cultura e em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Também é fotógrafa formada pelo Labfoto. Foi trainee de jornalismo ambiental na Folha de S.Paulo.

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