Publicado em 30/04/2026 às 10h45.

Arara-vermelha-grande volta a se reproduzir após 200 anos de extinção

O primeiro nascimento de filhotes da ave foi registrado pelo Ibama em abril deste ano, quatro anos após o início do projeto

Redação
Registro mostra casal defendendo ninho contra aproximação de estranhos (Foto: Cetas Porto Seguro/Ibama)

 

A arara-vermelha-grande (Ara chloropterus) voltou a se reproduzir após 200 anos de extinção. Conquista foi alcançada devido ao Projeto de Reintrodução do animal na Mata Atlântica, conduzido pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), em Porto Seguro.

O primeiro nascimento de filhotes da ave foi registrado pelo Instituto em abril deste ano, quatro anos após o início do projeto.

Essa é a primeira reintrodução documentada da espécie no bioma, com registro de filhotes nascidos na natureza após a sua extinção no litoral brasileiro, configurando um marco para a conservação da Mata Atlântica.

Os indivíduos utilizados no projeto do Ibama são oriundos de cativeiro, já que, devido ao desmatamento e a captura ilegal, as aves passaram a estar extintas em alguns locais do país – inclusive na Mata Atlântica.

As aradas resgatadas em apreensões de combate ao tráfico e doadas por entes privados, ao chegarem no Cetas (Centro de Triagem de Animais Silvestres) Porto Seguro, passaram por identificação com microchips e anilhas metálicas, quarentena, avaliação clínica e comportamental e testes sanitários. Em seguida, foram inseridas em viveiros de voo, onde passaram por treinamento que inclui condicionamento físico, socialização e adaptação ao ambiente natural, com oferta de frutos nativos e instalação de caixas-ninho artificiais.

A área escolhida para a soltura do primeiro grupo de aves foi um fragmento de Mata Atlântica com cerca de 7 mil hectares em estágio avançado de regeneração, que inclui a Estação Veracel, maior Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) de Mata Atlântica no Nordeste, localizada em Porto Seguro. No local, foram instalados comedouros e caixas-ninho artificiais para facilitar a adaptação das aves.

O primeiro lote de araras foi solto em 2024. Embora estudos indiquem que o período para reprodução possa chegar a cinco anos, foi observado que algumas caixas-ninho já estavam ocupadas no primeiro ano após a soltura. Em 2026, casais passaram a defender essas estruturas, indicando comportamento reprodutivo.

Segundo a analista ambiental do Ibama e coordenadora do projeto, Ligia Ilg, o monitoramento identificou um casal permanecendo por longos períodos em uma das caixas-ninho. A equipe optou por acompanhamento à distância para não interferir no processo. Posteriormente, foi confirmado o nascimento de dois filhotes, que já foram observados voando, sendo alimentados pelos pais e iniciando a exploração de alimentos de forma independente.

Filhote de arara-vermelha-grande (Foto: Cetas Porto Seguro/Ibama)

Da extinção à reintrodução

Originalmente, a arara-vermelha-grande possuía ampla distribuição geográfica, ocorrendo em quase todo o Brasil, exceto em alguns estados do Nordeste e do Sul.

A espécie foi registrada na Mata Atlântica desde o ano de 1500, na Carta de Pero Vaz de Caminha, que a descreveu como “papagaios vermelhos, muito grandes e formosos”. A presença dessas aves na Mata Atlântica baiana também foi descrita por viajantes como o príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied, que registrou sua ocorrência entre o Rio Mucuri e Salvador.

Apesar de sua ampla distribuição histórica, o desmatamento e a captura ilegal levaram à extinção da arara-vermelha-grande em todo o litoral brasileiro.

Atualmente, as populações selvagens da espécie estão concentradas no interior do país, principalmente nas regiões Centro-Oeste e Norte. O projeto do Ibama busca reverter esse cenário, promovendo o retorno da espécie ao litoral brasileiro.

A experiência registrada em abril deste ano contribui para desfazer a ideia de que aves mantidas em cativeiro não conseguem retornar à natureza. Segundo Ligia Ilg, registros anteriores já haviam demonstrado a reprodução de papagaios-do-mangue e periquitos-rei na natureza, mesmo sendo oriundos de cativeiro. O comportamento natural pode ser recuperado por meio de treinamento e convivência com outros indivíduos da mesma espécie.

A arara-vermelha-grande desempenha importante papel ecológico, alimentando-se de frutos e sementes e contribuindo para sua dispersão. Devido ao seu porte, a espécie é capaz de transportar sementes por longas distâncias, favorecendo a regeneração florestal e atuando como “engenheira de ecossistemas”, influenciando a biodiversidade e a dinâmica ambiental.

Mais notícias

Este site armazena cookies para coletar informações e melhorar sua experiência de navegação. Settings ou consulte nossa política.