Liliana Peixinho é jornalista, ativista social, integrante de diversos grupos de luta e defesa de direitos humanos. Fundadora e coordenadora de mídias livres como: Reaja – Rede Ativista de Jornalismo e Ambiente, Mídia Orgânica, O Outro no Eu, Catadora de Sonhos, Movimento AMA – Amigos do Meio Ambiente, RAMA -Rede de Articulação e Mobilização em Comunicação.
Publicado em 14/09/2016 às 14h10.
A prática do discurso
Ter a atitude de colocar a mão em lixo dos outros não tem sido suficiente para mostrar o discurso na prática
Liliana Peixinho

Quando observamos o descaso com a vida, com a Natureza, com o outro e, por extensão, com a nossa grande casa, o Planeta Terra, é comum atribuirmos problemas sérios, como a falta de saneamento, de água ou do verde, ao governo, às empresas, nos inocentando de qualquer contribuição negativa com os cenários, feios, sujos, desumanos. Seria revolucionário termos a consciência sobre a responsabilidade de cada um de nós na formação do que chamo – no trabalho de especialização em Jornalismo Científico e Tecnológico – “construção de cadeias harmoniosas de ponta a ponta”, da produção, ao consumo e descarte. Não tem sido fácil sair por aí a limpar ambientes sujos por mãos desatentas, descuidadas, apressadas, sem compromisso com a vida.
Pior do que assumir esse papel – para mim, tão nobre como defender uma tese de mestrado – é enfrentar, digamos, a ignorância, o descaso e a omissão, quase debochada, de quem não dá valor a esse trabalho e continua sujando e ainda faz cara de desdém quando lhe observa a pegar o lixo daquela pessoa, nojento, porque misturado, jogado em áreas indevidas. Podem achar que é loucura, insanidade, podem ignorar os atos, os esforços, mas não se pode desistir de defender e fazer, com as mãos que a deusa Natureza nos deu para bem usar, pequenas ações, aqui e ali, Bahia e Brasil afora, para reforçar o sonho: Por um Brasil Limpo.
Defender, pagar caro, esquecer-se de si mesma, de limitações em saúde e estruturas não é justo. Fazer esse trabalho, desde 1999, de forma independente, sem CNPJ para captação de recursos, depender de ajuda de amigos do Movimento AMA (Amigos do Meio Ambiente), não é tarefa fácil. E o mais desanimador é ver que as pessoas fazem confusão entre o que é limpo, de fato, e o que é sujo, o que é certo e importante para sanear o ambiente vida, e o que é deixar como está, por comodismo, falta de coragem e desculpas esfarrapadas, para se isentar, tirar sua responsabilidade do que é nocivo ao ambiente vida.
Ter a atitude de colocar a mão em lixo dos outros não tem sido suficiente para mostrar o discurso na prática, ou a prática do discurso. Chegar a lugares desconhecidos, sem contato algum com a comunidade e plantar ali a semente de trilhas limpas, como foi em 2002, na Chapada dos Guimarães, trabalho feito naturalmente, como quem anda na rua e pega um papel do chão e coloca no lugar certo, foi alegria das boas, compartilhada com um amigo e mais dois jornalistas ingleses, que conhecemos em viagem de ônibus, de Brasília para São Jorge. Um pequeno gesto aqui e ali se transformou num mutirão, e, em poucos dias, na criação da Trilha do Sossego, sem pressão, programação, ou apoio de nenhuma ONG, empresa ou governo. Apenas gestos de cidadania.
O Brasil precisa punir com rigor os promotores de sujeiras em espaços públicos e privados
O Brasil precisa, urgentemente, punir, com rigor, os promotores de sujeiras em espaços públicos e mesmo privados, porque a sujeira de casa acaba indo parar na rua, em algum lugar onde a vida se desenvolve. Descartar coisas como lixo, como lixo mesmo, algo sujo, nojento, misturado, sem critério de separação como resíduos em cultura dos Rs, como o Reaproveitamento, é crime, porque promove o mal-estar coletivo. Quem dera o país estivesse preparado para punir, severamente, como no Japão, e outros países civilizados, respeitosos ao direito do outro, aqueles que sujam, maltratam, desrespeitam o outro, naquilo que de mais sagrado o ser humano necessita para viver com dignidade: higiene, bem-estar, civilidade.
Trago aqui trechos da Carta da Terra, com 16 princípios básicos, agrupados em quatro grandes tópicos, que os brasileiros, os nordestinos, os baianos, não conseguem seguir, respeitar, e ainda atrapalham quem tem coragem e iniciativa própria para fazer. “Respeitar e cuidar da comunidade de vida; promover a integridade ecológica; fazer valer a justiça social e econômica; garantir a democracia, a não violência, e a paz”. Princípios importantes que precisam ser praticados de forma contextualizada, em visão integral, para a erradicação da pobreza, do acesso à água potável, ao ar puro, à promoção da vida, como merecemos.
O documento, compartilhado e assinado por todo o mundo, promove a segurança alimentar, por exemplo, e isso requer cuidados com o que comemos, com o que oferecemos às crianças, e aos idosos, que são vulneráveis em suas escolhas. A construção de sociedades democráticas, sustentáveis e justas são princípios expressos pela Carta da Terra que podem ser concretizados no cotidiano, sem necessitar de recursos de fundação, ONGs, institutos, associações, e um sem-número de caras jurídicas para fazer de conta que faz o que nós, cada um de nós, podemos fazer, a partir de nossas casas, nossas ruas, nossos bairros, nossas cidades. Hábitos sujos em casa são proliferados porta afora. O Movimento AMA desenvolve de forma voluntária, a campanha ADA – Agenda Doméstica Ambiental, com a qual se pode praticar a mudança de comportamentos sujos em limpos, a partir de pequenas ações cotidianas preventivas. Para isso só precisa de uma coisa, muito importante: o desejo de fazer a mudança a partir de sua própria casa, sua cabeça, seu coração, conectado em respeito a si e ao outro.
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