Publicado em 11/08/2026 às 18h09.

Violência contra a mulher cresce em dias de futebol em Salvador

Pesquisa do Fórum de Segurança Pública mostra alta em ameaças e lesões corporais entre 2023 e 2025; mulheres jovens são as mais afetadas

Juliano Franca
Foto: Rafael Rodrigues/EC Bahia

 

Salvador está entre as cinco capitais brasileiras analisadas em um estudo que identificou aumento nos registros de violência contra mulheres em dias de jogos de futebol. Segundo o levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as ocorrências de lesão corporal por violência doméstica cresceram 28,8%, enquanto os registros de ameaça tiveram alta de 27,4% nas datas com partidas.

A pesquisa, divulgada nesta terça-feira (11), considerou dados de 2023 a 2025 e cruzou registros policiais com o calendário de jogos de futebol. Além de Salvador, foram analisadas as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre.

Na capital baiana, os dados consideram partidas de clubes como Bahia e Vitória. O estudo levou em conta jogos das principais competições nacionais e continentais, como o Campeonato Brasileiro, a Libertadores e a Copa Sul-Americana.

Futebol não é apontado como causa direta

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública ressalta que a realização de partidas não pode ser considerada, isoladamente, responsável pela violência. A avaliação é de que o futebol pode funcionar como um fator de intensificação em contextos nos quais a violência doméstica já está presente.

“O futebol não gera violência doméstica. Mas catalisa para quem já vive em situação de grande vulnerabilidade”, afirmou Juliana Brandão, coordenadora de gênero e raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O levantamento também mostrou que o impacto é ainda mais expressivo entre pessoas de 15 a 29 anos. Nesse grupo, os registros de ameaça e lesão corporal aumentam 44% em dias de jogos. Quando considerados apenas os episódios ocorridos dentro de casa, as lesões corporais crescem 35,1%, enquanto as ameaças têm alta de 26,8%.

Os pesquisadores consideraram fatores como condições climáticas, já que chuva e temperatura podem influenciar a ocorrência de violência. Por outro lado, não foram incluídas variáveis como consumo de álcool ou o resultado das partidas.

Diferenças entre mulheres negras e brancas

A pesquisa também apresentou um recorte racial dos registros. Entre mulheres negras, os casos de lesão corporal aumentaram 23,2% nos dias de jogos, enquanto os registros de ameaça cresceram 14,6%.

Entre mulheres brancas, as altas foram ainda maiores: 30,9% nas lesões corporais e 36,2% nas ameaças.

Para Juliana Brandão, a diferença pode estar relacionada aos diferentes contextos sociais vivenciados pelas mulheres e à forma como os episódios de violência são registrados.

Alerta em relação a levantamento anterior

Esta é a segunda edição da pesquisa sobre a relação entre futebol e violência contra mulheres. O levantamento anterior, que analisou o período de 2015 a 2018, já havia apontado crescimento das ocorrências em dias de partidas.

Naquele estudo, os registros de ameaça aumentavam 23,7%, enquanto as agressões tinham alta de 20,8%. A nova pesquisa indica, portanto, uma elevação ainda maior nos dois tipos de ocorrência.

Os registros também variam de acordo com o dia da semana. As ameaças apresentam maiores aumentos às segundas-feiras, domingos e sextas-feiras. Já as ocorrências de lesão corporal crescem principalmente aos domingos e sábados.

Juliano Franca
Graduando em jornalismo pela UFBA e estagiário do Bahia.BA. Feirense, fundador da Fute em Foco, crítico de cinema pelo Cine.Italo, cofundador do Daft.Cult e membro da Liga de Jornalismo Esportivo da UFBA e da Liga de Cinema e Audiovisual.

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