A rivalidade interna no PT, a ponte e a pós-verdade

    Na coluna de estreia do Dendê e Poder, Dona Leonor revela o que é verdade e o que é mentira nos bastidores da política baiana

    Foto: Wuiga Rubini / GOVBA

    Toda sexta é dia de azeite

    Estreia aqui a nova coluna do bahia.ba. A Dendê e Poder foi construída para revelar os bastidores da política baiana de forma levemente apimentada. Se delicie toda sexta-feira, como manda a tradição baiana, mas com cuidado para não manchar a sua roupa branca do dia com tanto azeite.

    A rivalidade interna no PT I

    O meu amigo Acarajackson, que tem um tabuleiro lá na Avenida Tancredo Neves, ouviu dizerem por lá que Rui Costa (PT) torceu o bico para a nomeação de Adolpho Loyola (PT) como coordenador-mor da campanha do governador Jerônimo Rodrigues (PT). Segundo ele, a ideia do ex-ministro da Casa Civil era indicar o ex-deputado Ronaldo Carletto (Avante).

    A rivalidade interna no PT II

    Ao saber dessa história, um coligado de Rui procurou este tabuleiro para descer o sarrafo no senador Jaques Wagner (PT) e em seus pupilos. Ele previu uma eleição difícil para Jerônimo e cravou que o petismo só elegerá um senador (o ex-ministro, claro). Para piorar, garantiu que se Loyola for o escolhido para 2030, Rui rompe e sai a governador pelo Avante.

    A rivalidade interna no PT III

    Enquanto os assessores brigam, as campanhas de Rui e Wagner são uma só. Identidade visual, jingle, eventos públicos, tudo em conjunto. São petistas e aliados há mais de 40 anos. Podem até ter suas diferenças, mas preferem eleger um ao outro, do que dar espaço a seus principais adversários: Angelo Coronel (Republicanos) e João Roma (PL).

    A rivalidade interna no PT IV

    Para não dizer que não falei das flores, um interlocutor muito próximo de Jerônimo cravou neste tabuleiro que, na verdade, Carletto não foi colocado como opção hora alguma e que Rui teria dito na reunião que Loyola era um excelente nome para a coordenação. Os assessores ficaram com raiva à toa.

    A pressa é inimiga da análise

    Essa moda de querer prever 2030, inclusive, está muito engraçada. Além dessa de Rui sair pelo Avante em quatro anos, tem aqueles que estão dizendo que, se ACM Neto (União Brasil) não levar agora, vai levar na próxima. É cada certeza, que eu não sei, não. A única coisa que tenho segurança é que teremos algumas surpresas pelo caminho. Vamos esperar passar, pelo menos, 2028.

    A ponte e a pós-verdade I

    As baianas da ilha estão confusas sobre a Ponte Salvador-Itaparica. Duas, em especial. Uma em Mar Grande, pertinho do terminal de Vera Cruz, e outra que tem tabuleiro em frente a um condomínio nas proximidades da Praia de Conceição. Elas estavam divididas entre a empolgação com o canteiro de obras montado e a desconfiança por não ver nada sendo levantado no mar ainda. De um lado, veem Jerônimo dizendo que a obra já começou. Do outro, ACM Neto fala que é tudo fantasia.

    A ponte e a pós-verdade II

    Eu respondi para ficarem tranquilas. Vai demorar, mas vai sair. Não precisava Jerônimo fazer lançamento pomposo do canteiro de obras após tantos anos de promessa. Mas Neto se comporta como negacionista quando diz não haver nada. Vai ter dificuldade para negar quando, ainda em 2026, trabalhadores estiverem atuando no mar da Baía de Todos-os-Santos.

    A ponte e a pós-verdade III

    Por sinal, uma fonte próxima ao governador Jerônimo reclamou no meu tabuleiro que Wagner e Rui complicaram essa situação para o atual governo. O excesso de promessas sobre a Ponte Salvador-Itaparica desde 2009 é que provocam essa desconfiança geral na obra, que já começou, está totalmente contratada e tem verbas para acontecer. Por qual motivo não aconteceria?

    A ponte e a pós-verdade IV

    O Ministério Público já está até apurando se o Estaleiro de Paraguaçu tem licença para servir de canteiro de obras. Vídeos são publicados pela imprensa mostrando o negócio acontecendo, mas, em tempos de pós-verdade, os comentários nas redes sociais mostram que as pessoas não acreditam nem no que estão vendo. Mais descrentes que São Tomé. Para piorar, um vereador, doido para viralizar, ainda faz vídeo-gracinha no mar, para enganar os incautos.

    O voto e o algoritmo I

    Na eleição deste ano, o eleitor terá uma tarefa um pouco mais difícil do que apertar meia-dúzia de números na urna: separar quem quer mandato de quem quer engajamento. Tem candidato apostando mais no corte de 30 segundos, na dancinha e na polêmica fabricada do que em explicar o que pretende fazer quando a câmera desligar.

    O voto e o algoritmo II

    O deputado estadual Diego Castro (PL), por exemplo, resolveu viralizar nas redes sociais, indo à Faculdade de Comunicação (Facom) da UFBA para retirar adesivos do PT colados por estudantes nas paredes do prédio público. Ele sabia que seria confrontado por estudantes e foi lá cheio de apoiadores e assessores: parte para fazer a segurança, parte para fazer a mídia. Fez, virou notícia e espera transformar isso em voto.

    O voto e o algoritmo III

    Sim, colar adesivos de seus candidatos em um prédio público é propaganda irregular. Mas não é papel de deputado nenhum ir lá tirar. Acionar os órgãos competentes e esperar o cumprimento da lei é o dever básico do parlamentar. Mas não era bem isso que Diego queria. O objetivo era mesmo lacrar. Acabou lacrando e sendo lacrado.

    O voto e o algoritmo IV

    O presidente do Centro Acadêmico da Facom acusou Diego Castro de agressão durante o tumulto na UFBA. Pouco depois da confusão, ele já postou vídeo indignado nas redes sociais, obteve espaço na imprensa e foi até recebido pelo secretário estadual de Justiça e Direitos Humanos, o sempre atento Felipe Freitas. Mais uma invasão da faculdade e ele vira candidato a vereador em 2028.

    O voto e o algoritmo V

    Quem não gosta nada disso é o “bolsonarista light” João Roma. Ele torceu o bico para a patacoada de Diego Castro na UFBA, do mesmo jeito que reclamou quando Leandro de Jesus arrancou uma placa de inauguração do governo do estado no sul da Bahia. Roma pediu para que o deputado devolvesse a placa. E ele devolveu.

    Memória seletiva

    Criticar a fuga do oponente para não dar explicações ao eleitor é válido, desde que você não tenha feito o mesmo quando o vento soprava a favor. O discurso indignado de hoje soa falso para quem lembra da eleição passada. Mudar de postura conforme a conveniência do momento mostra que a única coerência dos grupos políticos é o cálculo eleitoral.

    Faltou o maior desafiante

    O bahia.ba encerrou, no último 20 de agosto, com o governador Jerônimo Rodrigues as entrevistas com os principais candidatos a governador da Bahia no Politiquestion. Antes, reservamos o dia 6 de agosto para Ronaldo Mansur (PSOL), que compareceu, e o dia 13 para ACM Neto (União Brasil), que estranhamente faltou.

    Não veio porque não quis

    O dia 13 foi oferecido justamente por ter sido uma preferência inicial da equipe de Neto. Nas proximidades, o próprio Neto revelou ao bahia.ba que a data se tornou um dia de difícil comparecimento. Então, resolvemos abrir uma exceção. Ele poderia vir qualquer outro dia da semana: 10, 11, 12 e 14. A equipe respondeu a vocês? Pois é. A nós também não.

    Comunidade pacífica

    Mansur não tinha muitos assuntos delicados durante a entrevista ao Politiquestion. O destaque foi ter prometido acabar com os Redas e fazer mais concursos. Mas, ao ser questionado sobre o domínio do Comando Vermelho na comunidade em que mora, o complexo do Nordeste de Amaralina, disse que não sabe e não conhece. Soou estranho.

    Oportunidade aproveitada

    Já Jerônimo, mesmo pressionado pelos entrevistadores em temas delicados como Segurança Pública, Saúde, Educação e Ponte Salvador-Itaparica, não perdeu o tom nas respostas e conseguiu defender seu governo. Nos bastidores, o desempenho do governador foi elogiado pelos hosts do Politiquestion, que também lembraram que o petista havia surpreendido positivamente no debate da Band Bahia.

    Contradição desnudada

    Jerônimo ainda trouxe um ponto importante: é mesmo contraditório que alguns especialistas adorem a gestão de Marcelo Werner à frente da SSP e odeiam a gestão do governo do estado na área de segurança pública. São as mesmas coisas: Werner foi escolhido por Jerônimo; ambos estão juntos, no bem e no mal.

    Orientação do fiel escudeiro

    A evolução em retórica e em posicionamento público tem a ver com a orientação atenta do jornalista Bruno Monteiro, secretário de Cultura que está de licença para ajudar o governador na campanha à reeleição. Assim como no debate da Band, Monteiro acompanhou Jerônimo no Politiquestion, onde se comunicaram com olhares.

    Rubro-negro apaixonado I

    Mansur chegou para a entrevista no dia 6 de agosto preocupado com o jogo do Vitória. Queria terminar o programa e correr para o Barradão, assistir ao jogo contra o Athletico-PR. Estava com tanta pressa, que saiu de casa com cada pé em um sapato diferente. Feliz com o 4 a 0 do Leão naquela noite, ele mandou uma foto para os entrevistadores, comemorando a classificação rubro-negra.

    Foto: Arquivo pessoal / Ronaldo Mansur

    Rubro-negro apaixonado II

    Já Jerônimo chegou ao Politiquestion com o Ba-Vi na cabeça. Falou que assistiria ao confronto em Brumado, onde teria um evento de campanha. Gastando os tricolores presentes no estúdio, previu um 3 a 0 para o Leão no clássico. Acabou tomando 2 a 0 e recebeu algumas gozações no zap-zap por causa disso.

    Os poderosos já escolheram

    A gente sabe que, toda eleição, o setor produtivo escolhe seu representante. Em regra, esse representante está entre a centro-direita e a extrema direita do espectro político. Aqui na Bahia, não está sendo diferente. Até a família mais poderosa do empresariado baiano, que estava brigada com ACM Neto em 2022, cansou de ser ignorada por Jerônimo e já assumiu sua preferência carlista.

    Laços refeitos

    Essa escolha familiar já até reabriu algumas portas que andaram fechadas para Neto. Veículos de comunicação que nem falavam no nome dele agora o recebem para sabatinas e entrevistas, com honras e pompas. Em um deles, o candidato chegou acompanhado de uma poderosa representante do setor produtivo — uma aliada que, sem dúvida, tem muito a ensinar e capacidade de decidir a eleição.

    O interior em foco

    Neto já contou por aí que não tem muitas expectativas de vencer nos pequenos municípios, onde a máquina do Estado costuma atropelar. Mas o objetivo é ampliar a vantagem que ele já teve nas grandes cidades da Bahia, fazendo-o superar a margem que Jerônimo tem nos rincões do nosso continental território baiano.

    Legislativos em pausa

    Mesmo após apelos da presidente Ivana Bastos (PSD) para que os deputados mantivessem a assiduidade nas sessões ordinárias da ALBA, o plenário da Casa tem andado vazio nas últimas semanas. Período eleitoral é assim: todo mundo viajando, procurando manter e ampliar suas bases, para garantir mais quatro anos. Nem a Câmara Municipal de Salvador, que só tem eleição em 2028, escapou da lógica: muitos por lá sonham alçar voos maiores.

    Tudo muda o tempo todo

    Na política, rivalidade tem prazo de validade. Na Lauro de Freitas de 2024, Débora Régis (União Brasil) e Antônio Rosalvo (então no PT) concorreram à prefeitura em lados opostos, numa campanha com golpes abaixo da linha de cintura. Dois anos se passaram, Rosalvo deixou o PT, foi para o PSDB e hoje é candidato a deputado pela oposição, ganhando o apoio justamente de Débora Régis, a mesma que o derrotou lá atrás. O tempo é rei.

    Kiss, wait and fly

    O bom projeto do vereador Carlos Muniz (PSDB), presidente da Câmara, que veta a cobrança para embarque e desembarque no aeroporto de Salvador já está há quatro meses andando em círculos. O que era para ser um “beijo e tchau” hoje já é praticamente um namoro, se encaminhando para noivado.

    Sucessão é o motivo

    Contaram no meu tabuleiro que a instabilidade na Câmara tem relação com a sucessão. Isso porque Muniz deseja se manter no cargo — como Adolfo Menezes tentou na ALBA ano passado — ou, se não tiver jeito, colocar Ricardo Almeida (DC) em seu lugar. Já ACM Neto, Bruno Reis e algumas forças empresariais que têm força sobre a Casa preferem o jovem vereador direitista Alexandre Aleluia (Novo).

    Mais ração para a Avivip

    O empresário de frangos de Santo Antônio de Jesus descobriu que existe uma espécie ainda mais faminta que galinha em horário de ração: liderança política em ano eleitoral. Depois de crescer o olho no Congresso e mirar o espólio do falecido (e querido) Alan Sanches, o candidato agora parece estar aprendendo uma boa lição da política: quem tem dinheiro vira amigo de infância de todo mundo.

    Com o Correria nos sonhos (ou pesadelos)

    O ex-poderoso Marcelo Nilo (Republicanos) teve a chance de ser senador, há várias eleições atrás. Com medo, não aceitou. O bonde era único, passou e ele não conseguiu mais alcançar. Agora, culpa os ex-aliados pelas próprias escolhas. Traumatizado por Rui, ele fala em respiradores em todo post do Instagram que lê. Essa paixão, porém, não parece ser correspondida.

    Nem o irmão quer mais

    Marcelo, coitado, é candidato a deputado federal, mas perdeu o apoio até do irmão. Sidônio Nilo, ex-prefeito de Antas, já disse que vai apoiar Gabriel Nunes (PSD) para a Câmara dos Deputados. É difícil não enlouquecer dessa forma. Afinal, quem quer ficar perto de quem ameaça o presidente do TRE?

    Goiano-baiano I

    O ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, é casado com uma baiana de Feira de Santana. Vem à Bahia com frequência, especialmente entre o fim de dezembro e o início de janeiro, quando curte umas férias. Mas ele resolveu adotar uma curiosa estratégia eleitoral: criticar a Bahia para convencer os baianos a votar nele.

    Goiano-baiano II

    A última de Caiado foi dizer que Salvador é uma zona de guerra, comparando a capital baiana à Ucrânia. Engraçado. Ele parecia bem tranquilo caminhando na rua durante a última Lavagem do Bonfim.

    Só se vê na Bahia

    Pense num absurdo. Pensou? Pois, na Bahia, há precedentes. A famosa expressão atribuída ao ex-governador Octávio Mangabeira tem feito cada vez mais sentido. Mesmo preso e condenado a mais de 36 anos de prisão, o deputado estadual Binho Galinha (Avante) não apenas continua no cargo, como lançou sua candidatura à reeleição. No dia 16 de agosto, fez até um adesivaço em Feira de Santana.

    Fiel ao Bahia, vira-folha na política

    O torcedor-símbolo do Bahia, Binha de São Caetano, é mais uma vez candidato. Em 2022, ele tentou uma vaga na ALBA pelo PSOL. Derrotado, ele deixou o partido e se filiou ao PP, tornando-se figurinha carimbada nos eventos do prefeito Bruno Reis e se lançando candidato a vereador em 2024. Agora, em 2026, o tricolor mais famoso de Salvador voltou à esquerda, se filiou ao PSB e vai buscar novamente se eleger deputado estadual. Fidelidade mesmo, só ao Bahia.