Mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro e divulgadas pela revista piauí citam o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, em uma festa privada realizada no tríplex do empresário, em São Paulo, em fevereiro de 2025.
Segundo a reportagem, conversas entre Vorcaro e funcionários indicam que um ministro teria utilizado um quarto do imóvel na companhia de cinco mulheres. Nunes Marques nega ter mantido contato com o banqueiro ou solicitado favores a ele.
Segundo a publicação, as conversas indicam que o banqueiro mobilizou motoristas, chef de cozinha, mordomo, uma agenciadora de garotas de programa, uma faxineira e um amigo arquiteto para preparar o imóvel e receber convidados. As mensagens também fazem referência à presença de um ministro identificado como Kassio, nome que a reportagem associa ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques.
O ministro nega ter mantido contato com Vorcaro ou solicitado qualquer favor ao banqueiro. Em nota à piauí, afirmou que nunca votou a favor de Daniel Vorcaro e que não pode ser responsabilizado por conversas ou ações de terceiros.
Mensagens detalham encontro com cinco mulheres
De acordo com a reportagem, os preparativos começaram dois dias antes da festa. Em 26 de fevereiro, o desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) Newton Ramos teria solicitado ao agente de viagens de Vorcaro uma reserva no Hotel Fasano, no Itaim Bibi, para a sexta-feira, mencionando a sigla “KN”, que a publicação relaciona a Kassio Nunes Marques.
No mesmo dia, Vorcaro avisou ao chef José Maria Meira que faria um “churrasco animado”. Para o evento, o profissional comprou carnes, cinco latas de caviar e trufas, com despesas de R$ 21.121,90. Segundo a revista, os custos da organização chegaram a aproximadamente R$ 27 mil.
Na sexta-feira, o banqueiro informou que receberia 15 pessoas e pediu reforço no serviço. A agenciadora Rayanna, que afirmou não poder comparecer, disse que enviaria duas mulheres e acertaria os valores posteriormente.
As mensagens também mostram Vorcaro orientando funcionários sobre a chegada dos convidados, a organização dos ambientes e problemas no apartamento, como falhas na automação e no ar-condicionado.
Às 14h04, um dos motoristas avisou que as mulheres estavam chegando e perguntou se poderia liberá-las para subir. Vorcaro respondeu: “Todas que chegarem. Pode subir”.
Em outra conversa, enviada ao ex-diretor jurídico do Banco Master Luiz Rennó, o banqueiro teria escrito que estava “fazendo graça para ministro em SP”.
Mordomo relata presença de ministro e cinco mulheres
Um dos principais trechos reproduzidos pela piauí é uma mensagem enviada pelo mordomo Michael a Vorcaro às 20h56 do dia da festa. Segundo a reportagem, o funcionário escreveu: “Emprestei quarto do lado para ministro com 5 menina”.
O mordomo afirmou que tentou telefonar para pedir autorização, mas não conseguiu falar com o banqueiro. Às 21h29, Vorcaro respondeu concordando com a utilização do quarto e, em seguida, orientou que seu próprio quarto permanecesse fechado e que outros ambientes fossem disponibilizados, caso necessário.
Mais tarde, Michael relatou que os convidados estavam nus na piscina e que uma mulher havia passado mal e vomitado, mas já estava bem.
Às 22h55, o mordomo informou que o ministro não demonstrava pressa para ir embora e teria dito que estava “renovando para começar tudo novamente”. Às 23h17, Michael avisou que o convidado estava deixando o imóvel.
A reportagem também relata que, após a saída dos convidados, o mordomo enviou a Vorcaro fotografias de preservativos usados encontrados no apartamento e de uma peça de lingerie localizada entre o lençol e a fronha de um travesseiro.
As mensagens reproduzidas pela revista não comprovam, por si só, eventual pagamento ao ministro nem esclarecem todas as circunstâncias do encontro.
Agenciadora citou encontro e cobrança de R$ 10 mil
O caso já havia ganhado repercussão em setembro, quando o portal Metrópoles publicou conversas entre Vorcaro e Rayanna, identificada como agenciadora de garotas de programa.
Em uma das mensagens, ela escreveu: “A minha amiga lá aquele dia! Deu certo né? […] Ela disse que ficou com o kassio”. Na sequência, afirmou que a mulher estava cobrando o valor combinado. Ao perguntar quanto seria, Vorcaro recebeu a resposta “10 né!”, acompanhada de uma chave Pix.
A publicação do Metrópoles não esclareceu, por si só, a identidade da pessoa mencionada como “Kassio” nem demonstrou que o valor tenha sido pago ao ministro. A reportagem da piauí acrescenta novos detalhes sobre a organização da festa e a referência a um ministro nas conversas entre Vorcaro e seus funcionários.
Reportagem relaciona festa a decisões envolvendo o Master
A revista também destaca conexões entre Vorcaro e Nunes Marques em processos relacionados ao Banco Master.
Cinco meses antes da festa, o ministro desempatou, na Segunda Turma do STF, o julgamento do chamado caso Alcídia, relacionado a precatórios do setor sucroalcooleiro que, segundo a publicação, poderiam contribuir para recompor o balanço da instituição financeira.
Ainda conforme a reportagem, mensagens mostram Vorcaro e seus advogados comemorando o resultado. A publicação também registra que a defesa do Banco Master pediu, em três ocasiões, que processos relacionados à instituição fossem conduzidos por Nunes Marques, em vez de André Mendonça.
A coincidência temporal entre a festa e decisões judiciais, contudo, não comprova que tenha havido troca de favores ou que as decisões tenham sido tomadas em razão do encontro.
Reportagem cita transferências a consultoria ligada ao filho do ministro
Outro ponto abordado pela piauí envolve transferências financeiras realizadas pelo Banco Master à Consult Inteligência Tributária.
Segundo a publicação, a instituição fez 14 operações que somaram R$ 6,6 milhões à consultoria no período em que ocorreu a festa. Desse montante, R$ 282 mil teriam sido repassados diretamente a Kevin Marques, filho do ministro.
A reportagem afirma ainda que outras mensagens indicariam o pagamento de R$ 500 mil mensais por Vorcaro a Kevin. O material citado levanta questionamentos sobre as relações financeiras, mas a existência de transferências, isoladamente, não comprova irregularidade nem demonstra que os valores tenham relação com decisões judiciais.
Mensagens mostram crise de liquidez no Banco Master
Enquanto organizava a festa, Vorcaro também tratava de dificuldades financeiras do banco. Segundo a reportagem, na tarde de 28 de fevereiro, um contato atribuído ao ex-diretor do Banco Central Paulo Sergio Souza questionou o banqueiro sobre o uso de R$ 800 milhões do depósito compulsório.
Vorcaro respondeu que a situação seria regularizada depois do Carnaval, com a venda de carteiras de crédito e novas captações.
Mais tarde, o executivo Alberto Felix de Oliveira Neto informou que o valor utilizado havia chegado a R$ 1,25 bilhão. Vorcaro demonstrou indignação e, em mensagem a outro executivo, pediu a demissão de Alberto e afirmou que tentaria salvar o banco.
A reportagem relaciona o episódio à tentativa de manter a liquidez do Master e à expectativa de uma operação com o Banco de Brasília (BRB), anunciada posteriormente.
Ministro nega relação com Vorcaro
Procurado pela piauí, Nunes Marques foi questionado sobre a participação na festa, eventual pagamento a mulheres presentes, possíveis conflitos de interesse em processos envolvendo o Banco Master e sua permanência na presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Na resposta reproduzida pela revista, o ministro declarou:
“O ministro Kassio Nunes Marques nunca votou a favor de Daniel Vorcaro (inclusive deu voto pela manutenção da prisão), nunca trocou mensagens com ele e nem pediu nada ao banqueiro. O ministro também nunca autorizou ninguém a falar em nome dele e não pode se responsabilizar por conversas ou ações de terceiros”.
A nota não confirma a presença do ministro na festa nem responde individualmente a todos os questionamentos apresentados pela publicação.
O caso levanta questões sobre a relação entre interesses privados, autoridades públicas e decisões judiciais. Até que os fatos sejam esclarecidos pelas instâncias competentes, as mensagens e os relatos publicados devem ser tratados como elementos de uma denúncia jornalística, e não como comprovação definitiva de corrupção ou de troca de favores.

