Publicado em 12/08/2026 às 15h00.

Maglore encontra ‘Fluxo Natural’ entre rock e MPB em novo álbum

Ao bahia.ba, Teago Oliveira destaca referências sonoras do novo projeto da banda

João Lucas Dantas
Foto: Elisa Imperial/ Divulgação

 

Os baianos da Maglore, tradicional banda de rock que marca o cenário independente nacional há quase 20 anos, chegam ao sexto álbum de estúdio com Fluxo Natural, que será lançado nesta sexta-feira (14), em todas as plataformas digitais.

Ampliando as influências e características marcantes do grupo formado por Teago Oliveira, vocalista e guitarrista; Lelo Brandão, nas guitarras e no teclado; Lucas Gonçalves, no baixo; e Felipe Dieder, na bateria, o quarteto busca referências na música brasileira das décadas de 1970 e 1980, sem deixar o lado roqueiro de lado.

Com uma turnê nacional marcada e passagem por Salvador no dia 20 de setembro, no Largo da Tieta, no Pelourinho, o bahia.ba conversou com Teago, principal compositor das 11 faixas que compõem o álbum, que contou detalhes sobre o processo criativo do novo trabalho.

Capa do álbum
Design: Teago Oliveira

A nova fase da banda

Tendo encerrado a turnê de comemoração dos 15 anos de banda entre 2025 e 2026, o novo projeto havia sido anunciado no começo do ano e ganha vida nesta semana, acompanhado de uma turnê que celebra a nova fase do grupo. Apesar da aparente organização, o processo até chegar ao disco foi bastante espontâneo.

“Nosso planejamento pareceu organizado, mas não foi nem um pouco. Na Maglore, as coisas acontecem de uma forma muito espontânea e, às vezes, os deadlines são meio alterados”, contextualizou o vocalista.

A ideia inicial era lançar o álbum ainda em 2024, mas o grupo percebeu que as músicas reunidas naquele momento ainda não formavam uma unidade.

“A gente começou a pensar nesse álbum há dois anos. Era para ter sido um disco que a gente ia fazer e lançar naquela época. Então, naquele período, a gente reuniu as músicas e, quando nos demos conta, não tínhamos as músicas ainda — ou, pelo menos, as que a gente tinha ali, não acreditávamos que formavam uma unidade”, acrescentou.

Simultaneamente, Teago vinha trabalhando em seu álbum solo, lançado no ano passado e intitulado Canções do Velho Mundo. O projeto, que inicialmente seria feito sem pressa, acabou sendo antecipado para 2025 justamente para que o músico pudesse se dedicar aos trabalhos da Maglore neste ano.

“Nesse meio-tempo, a Maglore já vinha reduzindo o número de shows porque a gente já tinha uma vontade de que esse disco, Fluxo Natural, fosse feito e gravado em 2026. No início do ano, nos reunimos e juntamos umas 18 músicas e pensamos: ‘Opa, temos aqui as que podem ser as faixas do disco’”, explica Teago.

A partir daí, o processo ganhou velocidade. “Tudo correu muito rápido, porque a gente já tinha uma familiaridade muito grande com as músicas. A gravação foi super simples, aqui em casa mesmo, então tudo ficou mais fácil. Virou meio que um negócio superindependente, mas que a gente consegue gerir de forma profissional”, pontua.

Foto: Elisa Imperial/ Divulgação

Temas centrais do álbum

Dentro dessa nova fase, o interesse pelo fluxo natural da vida acabou se tornando um dos temas centrais do projeto, refletindo também a maturidade alcançada pelo grupo ao longo de quase duas décadas de trajetória — algo que já aparece no próprio título do álbum.

“A gente gosta de criar uma vibe, de ter uma unidade do que faremos. Nesse disco, a gente pensou e dialogou que queria fazer algo diferente. O álbum precisava soar diferente do último e de todos os outros. Quando a gente conseguiu sentir essa diferença no grupo de músicas, falamos assim: ‘Beleza, aqui é que está’”, disse.

Segundo o cantor, a seleção musical também contou com composições que já existiam desde 2024. No entanto, duas das faixas que acabaram se tornando pontos centrais do novo trabalho, Farol e Palestina nos Seus Olhos, surgiram durante o próprio processo de gravação.

“Elas deram para o disco a cara que a gente estava querendo também. E aí foi ali nos 45 do segundo tempo, porque a gente meio que fechou a tampa e falou assim: ‘Ó, esse aqui é o disco. Daqui não passa, nem retrocede nem avança. Vamos fechar com essas músicas aqui e vamos decidir lançar’”, relembrou o compositor.

Foto: Elisa Imperial/ Divulgação

Entre Clube da Esquina e Caetano Veloso

Dentro desse universo de influências, a banda também resolveu prestar uma homenagem ao cantor Lô Borges, falecido em 2025, e ao seu irmão, Márcio Borges, dois dos grandes nomes ligados ao Clube da Esquina. A referência aparece na faixa Para Lô, enquanto o disco também incorpora elementos da fase oitentista de Caetano Veloso.

“Sempre ouvimos muito música brasileira. Tem uma galera que está um pouco surpresa com essa coisa de algumas músicas parecerem mineira, mas, desde sempre, a Maglore tem uma referência muito grande dessa fonte”, pontua.

“O Caetano dos anos 80, essa coisa meio Cores, Nomes, era uma sonoridade que a gente ainda não tinha explorado e que a gente gostava muito, que estava muito dentro do que a gente faz também, mas que não havíamos explorado tanto nos outros discos por uma questão de que não ficava tão natural”, esclarece Teago.

Com a chegada de Fluxo Natural, pareceu ser o momento certo para explorar uma estética mais voltada aos anos 1980. Segundo o cantor, trata-se de um período em que a indústria fonográfica brasileira também recebia forte influência da música norte-americana, algo que acabou refletido na sonoridade de diferentes artistas nacionais.

Naquele período, a MPB também incorporou novas sonoridades e lançou trabalhos como Parabolicamará, de Gilberto Gil e Cinema Transcendental, de Caetano Veloso.

“Nós somos uma banda que mistura muito rock com MPB. Apesar de os roqueiros não enxergarem a gente como uma banda de rock e a galera da MPB não enxergar a gente como uma banda de MPB, misturamos esses estilos”, expressa o artista.

“Para nós, acaba sendo muito natural que o disco soe como um trabalho de rock, mas que também tenha muita coisa de música brasileira, porque, na verdade, é o que a banda é. As nossas referências são essas”, pontua.

Foto: Pedro Ribas/ Divulgação

Política, guerra e afeto

O novo trabalho também marca um flerte mais direto com assuntos políticos, principalmente em Palestina nos Seus Olhos.

Na faixa, a banda aborda uma realidade política concreta ao mesmo tempo em que encontra espaço para falar de afeto, intimidade e esperança, sem perder a unidade proposta pelo álbum.

“É mais uma música que fala sobre o mundo hoje. Geralmente, a gente nunca fica preso ao passado. Apesar de a gente ter sonoridades de outras décadas e misturar coisa moderna com coisa antiga, eu acho que o discurso da Maglore sempre é um discurso atual”, pontua.

“Ela é muito sensorial. Não é uma música panfletária, não é anti alguma coisa nem pró alguma coisa. Muito embora as minhas opiniões políticas sejam muito claras, acho que existe um claro genocídio por parte de Israel. Acho evidente”, explicou Teago.

Apesar de suas opiniões políticas, o cantor garante que a faixa não busca explorar uma abordagem necessariamente polêmica. A canção, segundo ele, está mais interessada em tratar do afeto e da possibilidade de encontrar algum tipo de esperança em meio a um cenário de guerra e destruição.

“Ela fala sobre religião, sim, sobre as atitudes bélicas do homem. Fala um pouco sobre isso e fala sobre a doçura também de você encontrar amor e afeto num período de tristeza”, diz.

Foto: Elisa Imperial/ Divulgação

Quase 20 anos de Maglore

Com quase duas décadas de banda, muitas coisas acabaram ficando para trás, enquanto outras foram preservadas para manter o grupo em seu próprio fluxo natural.

Para Teago, a principal razão para a longevidade da Maglore está justamente na vontade de continuar criando.

“O que fez a gente durar esse tempo todo foi a vontade de tocar e de curtir tocar e, principalmente, de criar. Foi isso que manteve a banda viva todos esses anos. Foi a coisa de não perder uma certa adolescência sentimental, assim, de gostar de fazer como se a gente ainda estivesse lá. No quarto, com um violão na mão, imaginando que um dia a gente pudesse tocar para muita gente”, celebra.

“Obviamente, somos adultos, estamos velhos e temos contas para pagar, temos dificuldades. Somos uma banda independente, mas também temos muita sorte. Vivemos da própria música, um negócio que é muito raro hoje em dia”, acrescenta.

 

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Maglore de volta a Salvador

Com passagem marcada novamente por Salvador, no Pelourinho, espaço importante para a trajetória do grupo, Teago promete um show ainda maior para o público soteropolitano.

A apresentação acontece no dia 20 de setembro, no Largo da Tieta, como parte da turnê de Fluxo Natural.

“Serão shows maiores. Felizmente para o público e penosamente para a gente. A cada disco que passa, algumas músicas não conseguem ser retiradas do repertório porque o público, principalmente o de Salvador, é muito radical”, brinca.

A promessa é de uma apresentação extensa, que deve contemplar o novo álbum na íntegra e ainda revisitar diferentes momentos da carreira da banda.

“A gente pretende tocar o disco inteiro. Eu acho que a galera vai gostar. Em vez de duas horas, os shows vão ficar com duas horas e meia. Então, é chegar cedo no lugar e se preparar, porque a gente também quer tocar cada vez mais cedo”, conclui Teago Oliveira.

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde, Viva Comunicação Interativa, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador e portal Bahia Econômica. Atualmente, é repórter de Cultura no bahia.ba. Contato: jlucas9915@gmail.com

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