Zoe X descarta revelar identidade e mira adaptação para as telas: ‘Gosto do mistério’
Em entrevista exclusiva ao bahia.ba, fenômeno do dark romance fala sobre anonimato, críticas e futuro

Mais de 400 mil livros vendidos, milhões de páginas consumidas no Kindle Unlimited, lançamentos entre os mais vendidos da Amazon e filas que atravessam eventos literários pelo país. Ainda assim, uma das autoras brasileiras mais populares do dark romance continua sendo uma desconhecida quando retira a máscara. Em entrevista exclusiva ao bahia.ba, Zoe X revelou que, mesmo após transformar o anonimato em uma das marcas mais reconhecíveis de sua carreira, não pretende mostrar quem existe por trás da balaclava (uma espécie de máscara ninja).
A decisão, curiosamente, não nasceu como estratégia de marketing. Zoe conta que escolheu um pseudônimo de maneira quase inocente e que a máscara acabou assumindo um papel maior conforme a carreira crescia. Hoje, a escritora admite que o mistério não apenas ajuda a preservar sua vida particular, como também desperta a curiosidade de potenciais novas leitoras.
“Atualmente, não tenho pretensão de revelar minha identidade e confesso que gosto da atenção que todo esse mistério desperta”, afirmou. Segundo ela, há quem chegue às bienais sem conhecer seus livros, veja a autora mascarada cercada por fãs e decida descobrir quem é aquela mulher.
Esse anonimato acompanha uma carreira que chega aos dez anos em dezembro. Segundo dados divulgados pela assessoria da autora, Zoe já ultrapassou 400 mil exemplares vendidos, físicos e digitais, acumula mais de 1 milhão de leituras no Wattpad, alcançou o Top 2 geral da Loja Kindle e chegou à primeira posição no termômetro de vendas da Amazon Brasil com a edição física de Queimando por Você.
A máscara virou marca, mas Zoe diz que também funciona como proteção
Para a escritora, existe uma dimensão mais profunda na decisão de continuar sem mostrar o rosto, ela considera que a aparência ainda determina, de maneira excessiva, a forma como pessoas são julgadas e afirma que a balaclava permitiu que o público se conectasse primeiro com aquilo que ela efetivamente produz.
“Acho que existe uma crueldade muito grande na forma como as pessoas julgam a aparência umas das outras, e a máscara me permitiu construir uma relação baseada no respeito pelo que realmente tenho a oferecer como Zoe X”, explicou.

Ela rejeita a ideia de que a máscara crie distância. Nos encontros com leitoras, diz estar completamente presente, mesmo sem mostrar o rosto.
“Meu rosto está coberto, mas eu estou inteiramente presente naquele momento. A máscara nunca foi um disfarce, porque não estou tentando fingir ser outra pessoa. A máscara é proteção”, contou.
A comunidade construída em torno de Zoe começou muito antes dos números milionários. Em 2017, quando ainda publicava no Wattpad, ela criou um grupo no WhatsApp para se aproximar das primeiras leitoras. O espaço existe até hoje.
Foi ali, segundo a escritora, que ela percebeu que aquilo que havia começado como resposta a um sentimento pessoal de solidão já havia se transformado em algo coletivo. Mulheres de estados e até países diferentes passaram a criar vínculos a partir das histórias.
“Conheci histórias pessoais brutais e compreendi como a arte é capaz de criar conexões e encontrar quem precisa dela, independentemente do julgamento externo”, afirmou.
‘Dark romance não é simplesmente romance hot com situações mais pesadas’
Parte desse julgamento vem justamente do gênero que ajudou a transformar Zoe X em fenômeno comercial. O dark romance cresceu no mercado brasileiro, ganhou espaço em editoras tradicionais, livrarias e bienais, mas também se tornou alvo recorrente de discussões por apresentar violência, relações tóxicas, sexualidade e comportamentos moralmente questionáveis.
Zoe não foge da controvérsia. Para ela, o gênero deve ser produzido para adultos, com classificação adequada, avisos de conteúdo e pesquisa por parte do autor. Mas rejeita a ideia de que a literatura precise funcionar como manual moral para quem lê.
“A literatura não tem a obrigação moral de ensinar absolutamente nada”, afirmou.
A escritora argumenta que há uma diferença fundamental entre narrar determinado comportamento e defendê-lo.

“Também existe uma dificuldade em separar representação de identificação. Quando escrevo uma personagem, não estou dizendo que ela representa a minha leitora, nem que as escolhas daquela personagem são as escolhas que a leitora faria”, admitiu.
Na avaliação de Zoe, reduzir o gênero às cenas sexualmente explícitas ou violentas significa ignorar justamente o que faz uma boa história funcionar. “O dark romance não é uma ode ao grotesco porque o grotesco, sozinho, não sustenta uma história. É preciso haver propósito, construção e humanidade, mesmo quando falamos de personagens moralmente condenáveis.”
Ela ainda aponta uma diferença no tratamento dado às escritoras do gênero. Por ser uma literatura escrita e consumida majoritariamente por mulheres, avalia que autoras e leitoras recebem uma cobrança moral que dificilmente recai, na mesma intensidade, sobre homens responsáveis por obras violentas de terror ou suspense.
Do Wattpad para uma indústria de centenas de milhares de livros
A história de Zoe também acompanha uma mudança importante no mercado editorial brasileiro. Ela começou fora das grandes editoras e aprendeu a utilizar plataformas como Wattpad e Amazon para transformar escrita em carreira.
Durante anos, conta que acreditou que somente uma editora tradicional poderia legitimá-la como escritora. A percepção mudou quando começou a compreender o livro não apenas como obra artística, mas também como produto.
“Como meu plano sempre foi viver da escrita, precisei aprender a enxergar meu trabalho também como um negócio”, explicou.
O aprendizado comercial, entretanto, não significou escrever exclusivamente em função de tendências. Questionada pelo bahia.ba se escolheria produzir um livro desejado por uma grande editora ou aquele em que suas próprias leitoras acreditassem, Zoe não hesitou.
“Sem dúvida alguma, eu escolheria escrever o livro em que minhas leitoras acreditam. No fim, são elas que decidem o que se transforma ou não em um sucesso de vendas.”
Essa relação ajudou a levar títulos antes independentes para o circuito tradicional. Amor Profano marcou a entrada de Zoe nesse mercado e teve desempenho destacado na Bienal do Livro do Rio de 2025. Depois, Queimando por Você, primeiro volume da série Malditos Também Amam, ganhou uma turnê nacional que passou por cidades como Salvador, Campinas, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre e São Paulo.
Em setembro, Zoe estará novamente diante de milhares de leitores como um dos nomes confirmados na programação da Bienal do Livro de São Paulo 2026.
Zoe X quer ver ‘Amor Profano’ no cinema ou streaming
Mesmo com números que já colocam sua obra entre fenômenos contemporâneos da literatura romântica brasileira, há um território que Zoe ainda quer conquistar: as telas.
Quando questionada pelo bahia.ba sobre um sonho que ainda parecesse grande, a autora apontou uma adaptação audiovisual de Amor Profano. “É um livro que consigo imaginar no cinema ou no streaming pela força visual da história, pela tensão entre os personagens e pelas discussões que ela pode provocar para além das páginas”, afirmou.
Ela cita como inspiração outras escritoras brasileiras que viram histórias do gênero atravessarem a fronteira dos livros. Sue Hecker teve O Lado Bom de Ser Traída adaptado pela Netflix, enquanto Pecadora, de Nana Pauvolih, terá versão para o cinema.
Para Zoe, esses movimentos mostram que histórias escritas por mulheres brasileiras, inclusive por autoras que nasceram no universo independente, encontraram espaço para alcançar outros públicos.
“Comecei publicando sem saber se algum dia conseguiria viver da escrita. Hoje, posso sonhar em entrar em uma sala de cinema e assistir aos personagens que criei ganhando voz, rosto e movimento.”
Curiosamente, enquanto sonha em dar rosto aos próprios personagens, Zoe segue firme na decisão de não revelar o seu.
E parece ser justamente aí que esteja uma das chaves para entender o fenômeno. Depois de dez anos, centenas de milhares de livros e milhares de leitoras, a ambição da escritora deixou de estar necessariamente ligada a uma posição em rankings.

“Talvez meu maior objetivo seja construir uma relação de confiança tão sólida que a leitora entre em uma livraria, encontre um livro meu e o compre sem precisar saber exatamente sobre o que é a história”, disse.
Se depender dela, portanto, o próximo rosto revelado por Zoe X será o de algum personagem nas telas. O rosto da mulher por trás da balaclava, por enquanto, continuará pertencendo apenas a ela.
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