Da Copa do Mundo à história: o elo entre Portugal, Congo e a Bahia
Herança congolesa influenciou a formação cultural, religiosa e linguística do estado

O empate entre Portugal e República Democrática do Congo pela Copa do Mundo de 2026 reacende uma história que vai muito além do futebol. O encontro entre as duas seleções coloca frente a frente territórios ligados por séculos de conexões históricas que também deixaram marcas profundas na Bahia. Em Salvador, essa herança pode ser percebida em tradições culturais, religiosas e sociais que remontam à região do Congo.
As relações entre Bahia e Congo remontam ao período colonial, quando o Atlântico servia como ponte entre a África Centro-Ocidental e o Brasil. Milhares de africanos de origem congo-angolana foram trazidos à força para a América Portuguesa, deixando marcas que permanecem vivas até hoje na identidade baiana.
Uma das curiosidades mais emblemáticas dessa ligação está nos próprios nomes das cidades. Salvador foi fundada pelos portugueses em 1549 como São Salvador da Bahia de Todos os Santos. Décadas antes, no século XV, a antiga capital do Reino do Congo, M’banza Kongo, havia sido rebatizada pelos portugueses como São Salvador do Congo após a conversão da monarquia congolesa ao cristianismo.
As duas cidades passaram a ocupar posições estratégicas dentro do sistema atlântico construído por Portugal. Enquanto São Salvador do Congo era um importante centro político e religioso da África Central, Salvador se consolidava como a primeira capital do Brasil e principal porta de entrada de africanos escravizados no período colonial.

As influências
Essa conexão histórica teve impactos duradouros na formação da cultura baiana. A presença dos povos bantos, grupo linguístico e cultural ao qual pertenciam muitos habitantes da região do Congo, influenciou profundamente a religiosidade, a música, a culinária e o modo de falar dos baianos. No campo religioso, as tradições de matriz Congo-Angola desempenharam papel fundamental na construção do candomblé. Um dos principais exemplos é o Terreiro do Tumbenci, fundado em Salvador em 1850 e considerado uma das mais antigas casas da nação Congo-Angola em atividade no país.

As heranças congolesas também podem ser percebidas em manifestações culturais populares. O afoxé Filhos do Congo, por exemplo, preserva referências ancestrais africanas e reafirma a presença da cultura centro-africana no cotidiano baiano. Expressões linguísticas incorporadas ao português brasileiro, como Dengo, sinuca, marimbondo e sinuca, além de elementos presentes na musicalidade popular do estado também carregam influências originárias da região do Congo.

A relação, contudo, não se limita ao passado. Nas últimas décadas, representantes do governo congolês e autoridades baianas têm fortalecido intercâmbios institucionais voltados para áreas como cultura, educação, tecnologia, agricultura e preservação da memória afrodescendente. Em novembro de 2024, a Rainha da República Democrática do Congo, Diambi Kabatusuila, visitou Salvador e participa de eventos em alusão ao Novembro Negro.
Atualmente conhecida como M’banza-Congo, após a recuperação de seu nome tradicional com a independência de Angola, a antiga São Salvador do Congo é reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO. Sua trajetória histórica guarda paralelos simbólicos com Salvador, cidade que concentra uma das maiores populações negras fora do continente africano.
Mais de cinco séculos depois dos primeiros contatos entre portugueses e congoleses, os vínculos construídos através do Atlântico continuam presentes nas ruas, nos terreiros, na música e na memória coletiva da Bahia. Uma herança que transforma a relação entre Salvador e o Congo em um dos capítulos mais significativos da história afro-atlântica.
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