A disputa pelas duas vagas da Bahia no Senado chega à reta final com quatro candidatos concentrando as principais intenções de voto: Rui Costa (PT), Jaques Wagner (PT), João Roma (PL) e Angelo Coronel (Republicanos). No Entrevista.ba, do bahia.ba, o professor e cientista político Claudio André avaliou a configuração das chapas, o peso do lulismo e a possibilidade de uma disputa mais acirrada pela segunda cadeira.
A pesquisa AtlasIntel divulgada nesta quarta-feira (30) colocou Rui Costa com 28,2% dos votos válidos, seguido por Jaques Wagner, com 24,4%. João Roma aparece com 21%, enquanto Angelo Coronel registra 20,9%. Pela margem de erro de dois pontos percentuais, Wagner, Roma e Coronel estão tecnicamente empatados. O levantamento ouviu 2 mil eleitores entre 24 e 28 de setembro.
Na rodada anterior do mesmo instituto, divulgada em 3 de setembro, Rui tinha 31,6% dos votos válidos, Wagner 26,5%, Roma 20,4% e Coronel 17,9%.
Para Claudio André, o desempenho de Rui Costa é um dos principais elementos para entender a configuração da disputa. “O cenário para o Senado é muito interessante. Primeiro porque o ex-ministro Rui Costa apresenta-se como um grande representante da Bahia.”
Segundo o cientista político, a votação atribuída a Rui nas pesquisas vai além da identificação direta com o PT. “As intenções de voto o colocam talvez já gravitando mais próximo dos 40% de votos válidos. É bom lembrar que o senador Otto Alencar foi eleito em 2022 com 58%. Então, a gente consegue perceber que, mesmo tendo duas vagas, já se destaca que o ex-ministro Rui Costa consegue ter voto para além da força do PT e do lulismo na Bahia.”
Rui pode influenciar a segunda vaga
Na avaliação de Claudio André, a posição de Rui Costa na chapa governista também pode ter impacto sobre a disputa pela segunda cadeira. “Esse lugar de Rui na chapa aponta para um cenário de reforço da segunda vaga. Ele pode influenciar a segunda vaga, que vai ter um caráter mais concorrencial mesmo.”
A pesquisa mais recente mostra justamente uma aproximação entre Jaques Wagner, João Roma e Angelo Coronel. Na AtlasIntel/A TARDE, a diferença entre o segundo e o quarto colocado é de apenas 3,5 pontos percentuais, abaixo da soma das margens de erro.
Já a Real Time Big Data, divulgada em 28 de setembro, apontou Rui Costa com 28%, Wagner com 20%, Roma com 17% e Coronel com 15%, também com margem de erro de dois pontos percentuais.
Banco Master entra no debate sobre Wagner
Claudio André também mencionou o impacto político das investigações relacionadas ao Banco Master sobre a candidatura de Jaques Wagner.
Em junho, o Supremo Tribunal Federal autorizou a nona fase da Operação Compliance Zero, que investigou suposta relação entre executivos do Banco Master e o senador baiano. Segundo o STF, a investigação apurava suspeitas de crimes financeiros, lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa. Wagner negou envolvimento nas irregularidades.
Mais recentemente, o UOL informou que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro apresentou uma proposta de colaboração premiada com acusações envolvendo pessoas próximas ao grupo político de Wagner. A proposta, segundo a publicação, foi rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República por falta de elementos considerados suficientes; Wagner e pessoas citadas negaram as acusações.
Ao analisar o impacto eleitoral do episódio, Claudio André afirmou: “Eu penso que há um cenário crítico, no sentido de que o senador Jaques Wagner encontrou nessa pedra no sapato, na relação dele com Augusto Lima, com as questões envolvendo a investigação em geral do Banco Master, um problema de diálogo com parte do eleitorado lulista, com parte do eleitorado baiano.”
O cientista político, porém, aponta que a análise precisa considerar também a força das candidaturas ao governo. “A grande questão é que a gente tem que olhar a força que ACM Neto terá e que Jerônimo também terá para influenciar a chapa como um todo.”
“O voto tende a estar mais casado”
Para Claudio André, a relação entre a disputa pelo Governo da Bahia e a corrida pelo Senado será um dos elementos centrais da eleição. “O voto tende a estar mais casado: o voto para governador e para o Senado. Só que esse casamento no cenário baiano é algo que a gente vai ter que olhar de perto, domingo.”
Nesse cenário, a composição das chapas também ganha importância. No campo governista, Rui Costa e Jaques Wagner formam uma chapa integralmente ligada ao PT e ao grupo político de Lula. Na oposição, João Roma e Angelo Coronel disputam as duas cadeiras ao lado da candidatura de ACM Neto ao governo.
Para o cientista político, a transferência dos votos de cada candidatura ao governo para os nomes ao Senado será um dos principais movimentos a serem observados na apuração.
“O quanto o eleitorado de ACM Neto sairá do apoio a Rui Costa para migrar no apoio a Roma e a Coronel e, ao mesmo tempo, a capacidade do eleitorado lulista de fazer a chapa completa, de pedir o prato feito ali, de apoiar presidente, governador e os dois candidatos ao Senado.”
Roma e Coronel disputam espaço na oposição
Claudio André também avalia que a chegada de Angelo Coronel ao campo oposicionista e a candidatura de João Roma produziram uma disputa própria pela segunda vaga.
“Ângelo Coronel passou para a chapa de oposição. João Roma se constitui como uma grande liderança bolsonarista moderada.”
Na avaliação do cientista político, Coronel construiu uma estratégia mais voltada ao discurso municipalista.
“O Ângelo Coronel faz um discurso pragmático, municipalista, de que ele quer a segunda vaga. O discurso dele é: ‘Olha, não me preocupe com a primeira, mas me dê uma chance. Me deixa aí entrar nos municípios’.”
Claudio André destaca ainda a utilização do debate sobre prefeitos e emendas parlamentares na campanha.
“A questão das emendas foi muito bem explorada ali durante todo o processo eleitoral. Então, tem essa corrida pela segunda vaga que a gente deve olhar de perto como vai ocorrer.”
“A chapa lulista é muito forte”
Do outro lado, o cientista político considera que Rui Costa e Jaques Wagner carregam uma relação política construída ao longo de diferentes governos e posições ocupadas no cenário nacional.
“O lugar dessa chapa é muito especial, simbolicamente, do ponto de vista político. São duas lideranças hoje acopladas na política que sustenta o presidente Lula no âmbito nacional.”
Claudio André destaca a trajetória dos dois nomes no governo federal. “São duas lideranças nacionais. O ministro Rui Costa teve um papel destacado no Palácio do Planalto, na Casa Civil. O senador Jaques Wagner foi líder do governo no Senado, conselheiro, parceiro do presidente Lula em várias agendas.”
Para ele, a presença de baianos em posições relevantes da administração federal também ajuda a explicar a força política da chapa. “Isso levou inclusive a Bahia a ocupar um espaço de muito destaque no governo Lula, no terceiro governo Lula.”
O cientista político cita ainda outros baianos que ocuparam cargos no governo federal. “A gente tem ali um governo com vários baianos e baianas que foram ocupando o primeiro e o segundo escalão de forma muito estratégica.”
E resume a avaliação sobre a composição petista: “Então, eu vejo que é uma chapa forte, alinhada ao lulismo.”
Lula e a influência sobre a disputa
Na análise de Claudio André, a presença de Lula na Bahia durante a reta final da campanha também precisa ser considerada na disputa pelo Senado.
O presidente participou de ato político em Salvador nesta semana, em uma agenda que também reforçou a candidatura de Jerônimo Rodrigues ao governo.
Para o cientista político, a presença presidencial tem relação com a força do lulismo no estado. “É uma chapa forte, muito alinhada, e isso talvez faça a diferença na reta final.”
Claudio André relaciona ainda a presença de Lula na Bahia ao peso eleitoral do estado no cenário nacional.
“Não é à toa que o presidente Lula escolhe, na reta final, passar pela Bahia, quarto maior colégio eleitoral, e ao mesmo tempo sabendo que há, na minha visão, de fato, pelos números, uma chance maior dessa chapa petista se sair vitoriosa.”
Indecisos podem mexer na segunda vaga
Apesar da liderança de Rui e Wagner nos levantamentos, Claudio André chama atenção para o contingente de eleitores que ainda não consolidou o voto.
Na Real Time Big Data, 6% dos entrevistados não souberam responder e 5% declararam voto branco ou nulo.
Para o cientista político, entender quem são esses eleitores pode ser mais importante do que simplesmente observar o percentual geral de indecisos.
“É imprevisível esse movimento dos indecisos. Essa é uma questão que as pesquisas tinham que mapear de uma forma mais inteligente.”
Ele defende que os institutos cruzem o perfil desse eleitor com o comportamento registrado em eleições anteriores.
“Qual é o perfil desse eleitor indeciso? Por exemplo, em quem ele votou para o Senado em 2022? Em quem ele votou para presidente? Em quem ele votou para governador?”
Segundo Claudio André, esse tipo de informação permitiria uma leitura mais aprofundada do eleitorado de 2026.
“Você tem até elementos aí de análise do voto retrospectivo que poderiam ajudar mais a entendermos exatamente quem é esse eleitor de 2026 e como ele se comportou, pelo menos olhando para as últimas eleições na Bahia.”
Memória eleitoral pode pesar
Outro elemento destacado pelo cientista político é a memória das gestões de Jaques Wagner e Rui Costa no governo da Bahia.
“O senador Jaques Wagner e também o ex-ministro Rui Costa tiveram dois governos com muita penetração, com trabalho social, político, ou seja, com políticas públicas em toda a Bahia. Não é uma retórica.”
Claudio André chama atenção especialmente para o eleitorado rural. “E aqui eu quero chamar a atenção da ruralidade. Existe uma memória do voto que será ativada. Tem sido ativada nessa reta final.”
Ele cita políticas públicas associadas às gestões petistas como elementos que podem permanecer na memória de determinados segmentos do eleitorado.
“O senador Jaques Wagner foi o governador que avançou no saneamento na zona rural na Bahia, na habitação.”
Ao mesmo tempo, o cientista político lembra que João Roma também possui uma trajetória no governo federal que pode ser mobilizada eleitoralmente.
“Você tem João Roma sendo ministro, inclusive ele nega nas propagandas, ele não fala, não aprofunda na televisão e no rádio que ele foi ministro de Jair Bolsonaro e numa pasta também com muita força popular.”
Segundo Claudio André, essas experiências podem funcionar como referências para o eleitor na hora da escolha. “Tudo isso na cabeça desses eleitores envolve atalhos, visões, percepções que serão mobilizados agora na reta final.”
Eleitor ainda tem dúvidas sobre função do Senado
Claudio André também aponta um problema mais amplo: a dificuldade de parte do eleitorado em compreender as atribuições do Legislativo. “Tem algo que me assusta muito: ainda o afastamento do Legislativo, do ponto de vista da rotina da República, do seu trabalho sendo feito, na cabeça desses eleitores.”
Segundo ele, essa dificuldade alcança tanto deputados quanto senadores. “A gente ainda tem uma dificuldade de entender o que fazem os deputados, os senadores, o que cabe ali na definição das leis, na aprovação das leis que vão influenciar todas as políticas públicas.”
Para o cientista político, o debate sobre emendas parlamentares aproximou parte da população da atuação dos deputados, mas não resolveu a distância em relação às atribuições institucionais do Congresso.
“A gente criou mais um atalho ali onde, de fato, as pessoas estão entendendo mais esse papel do deputado em destinar alguns recursos. Mas ainda é muito distante.”
Diferença entre grandes cidades e interior
Claudio André afirma que essa dificuldade de compreensão política não se limita ao eleitorado do interior. “Sobretudo olhando para as grandes cidades. Às vezes a gente pensa que a população do pequeno município está mais distante das informações políticas.”
Na avaliação dele, a dinâmica municipal pode aproximar o eleitor de deputados e lideranças. “Ali ele tem um deputado, dois, três que trabalham mais ao lado do prefeito, do ex-prefeito, do campo da oposição.”
Ele explica ainda como a disputa municipal influencia essa relação. “Em geral, a disputa municipal envolve dois ou três candidatos. Como não tem primeiro turno, não faz muito sentido ter uma disputa municipal com muitas candidaturas. Então, praticamente você tem uma banda A, uma banda B, uma banda C ali na disputa dos médios e pequenos municípios.”
Nas grandes cidades, porém, Claudio André identifica um eleitor ainda em processo de decisão. “Se a gente sair agora, botar a equipe do bahia.ba na rua, a gente vai perceber, em grandes áreas de Salvador e das grandes cidades, que as pessoas ainda não sabem. De fato, não tem ali uma decisão do voto maturada, consolidada.”
Para ele, ampliar o debate público pode ajudar a aproximar candidatos e eleitores. “Eu penso até que valeria a pena depois pensar, por exemplo, em debates com os candidatos, os partidos indicando quem são os candidatos com mais chance de voto para debate, aumentar a capacidade pública de comunicação e de diálogo com os eleitores.”
Veja entrevista completa:

