Entrevista.ba: Reta final é decisiva para Lula e Flávio, diz Claudio

    Cientista político aponta dificuldade de Lula com eleitor de centro e destaca peso da economia na disputa

    Foto: Manuela Meneses/bahia.ba

    A polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) entra na reta final da eleição presidencial de 2026 com uma parcela do eleitorado ainda em movimento. Ao Entrevista.BA, do bahia.ba, o professor e cientista político Claudio André avaliou o cenário nacional e destacou a dificuldade do presidente em ampliar o diálogo com eleitores de centro, além do esforço das duas campanhas para concentrar o debate em temas como economia, renda, saúde e segurança pública.

    Os levantamentos mais recentes mostram uma disputa apertada. Pesquisa Datafolha divulgada em 28 de setembro apontou Lula com 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 36% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, os dois aparecem tecnicamente empatados, com 47% para Lula e 45% para Flávio.

    Para Claudio André, a configuração atual é resultado de um processo político iniciado ainda nas eleições anteriores e consolidado com a ascensão do bolsonarismo. “Primeiro que ainda em 2022, eu fui um dos poucos analistas aqui pela Bahia que fui muito categórico, viu, Neison, que para mim Jair Bolsonaro não se moderaria.”

    Polarização consolidou dois campos

    Na avaliação do cientista político, a expectativa de que Jair Bolsonaro adotasse uma postura mais moderada depois de chegar à Presidência não se confirmou.

    “Havia uma tese, na minha visão, aventada pela Faria Lima, pelo mercado financeiro, que ele se moderaria, que ele seria um presidente caminhando da direita, da extrema direita para a direita liberal. E isso não aconteceu.”

    Claudio André também relaciona esse processo à atuação do governo federal durante a pandemia de Covid-19 e compara a situação nacional com a articulação entre diferentes esferas de governo na Bahia.

    “Ele poderia ter sido o presidente que salvou o país da pandemia. Exatamente. E ele abriu mão desse lugar republicano, estadístico de dizer: ‘Não, a gente está morrendo, os brasileiros estamos perdendo vidas e eu vou fazer aqui isso, isso, isso’.”

    O cientista político cita a atuação conjunta de governos estadual e municipal na Bahia durante a pandemia como exemplo de articulação entre diferentes campos políticos.

    “Isso aconteceu na Bahia quando Rui Costa teve que sentar para dialogar com ACM Neto, ambos ocupando esse lugar, respectivamente, de governador da Bahia e prefeito de Salvador, para fazer uma gestão interfederativa em torno da pandemia.”

    “Dois grupos” e o eleitor que migra

    Segundo Claudio André, a eleição de 2022 produziu uma movimentação relevante no eleitorado brasileiro. “Passado esse processo de que ele não consegue se reeleger, me parece que a gente teve, de fato, a cristalização de dois grupos, aqueles que são lulistas, que na verdade já existe há muito tempo.”

    Na leitura dele, a consolidação do bolsonarismo criou um novo campo de identificação política à direita. “A grande vitória de Jair Bolsonaro foi ter criado pela primeira vez, desde a redemocratização, um campo de enraizamento social ideológico na direita.”

    O cientista político identifica ainda um grupo intermediário, formado por eleitores que mudaram de posição ao longo das últimas eleições. “O que é que sobrou no meio? Eleitores que já foram lulistas que se tornaram bolsonaristas e a vitória de Lula em 2022 se deu exatamente por esse realinhamento eleitoral de uma parte do eleitorado que migra novamente para o lulismo.”

    Lula enfrenta dificuldade com eleitor de centro

    É justamente nesse segmento intermediário que Claudio André identifica um dos principais desafios da campanha de Lula em 2026. “Só que em 2026, me parece até aqui, olhando para todo esse arsenal de pesquisa de opinião que o presidente Lula encontrou muita dificuldade de conseguir falar com essa coluna do meio, com esse eleitor mais de centro.”

    Segundo o professor, esse eleitor não necessariamente possui uma posição ideológica fixa e pode oscilar conforme temas econômicos, sociais e conjunturais. “Ele é um eleitor de, na ciência política, classicamente talvez um eleitor de centro pendendo para a direita. E aí você vai encontrar grupos mais moderados, menos moderados, enfim.”

    Para Claudio André, a dificuldade não estaria apenas na comunicação política, mas também em transformar determinadas medidas do governo em percepção eleitoral. “O presidente Lula não conseguiu, a comunicação não conseguiu, as políticas públicas não conseguiram, apesar de serem, em parte, bem-sucedidas.”

    Economia pode definir a reta final

    Entre as medidas citadas pelo cientista político está a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda. Desde janeiro de 2026, a legislação estabelece redução do imposto de modo a zerar a cobrança para rendimentos tributáveis mensais de até R$ 5 mil.

    Para Claudio André, porém, a medida não teria se convertido necessariamente em ganho político na percepção de parte do eleitorado.

    “Olha a questão do fim da cobrança de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000. Talvez tenha sido uma das maiores propostas para a classe média brasileira. E ela não se tornou dividendo eleitoral, não se tornou ativo político.”

    Ele também relaciona o cenário econômico ao endividamento e ao custo do crédito. “Há uma classe média tradicional que teve a corrosão do seu poder de renda por conta das bets e por conta do endividamento, com juros altos.”

    Na análise do cientista político, a questão dos juros e do acesso ao crédito também precisa ser considerada para compreender o comportamento desse eleitorado. “Se você tem um juro na casa dos 15% na Selic, obviamente que o empréstimo pessoal vai sair muito caro.”

    Bolsa Família e bets entram no cálculo eleitoral

    Na reta final, o governo Lula adotou medidas com impacto direto sobre renda e apostas. Em setembro, o Bolsa Família foi reajustado em 15%, elevando o benefício mínimo de R$ 600 para R$ 691. O governo informou que o percentual corresponde à variação do INPC acumulada entre março de 2023 e agosto de 2026.

    Já em 25 de setembro, Lula assinou a Medida Provisória nº 1.394, que proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no país. A medida também prevê a retirada das plataformas do ar a partir de 6 de outubro.

    Claudio André interpreta essas ações como uma tentativa de reposicionar a comunicação do governo na reta final. “O fim das bets também envolve um cavalo de pau que busca reposicionar a opinião pública.”

    Para ele, a questão das apostas pode atingir uma parcela específica do eleitorado. “Eu penso que essa proposta do governo através de uma medida provisória resulta na tentativa de falar talvez com 5% a 10% do eleitorado que tem uma posição mais crítica em relação à sua economia, à relação com as bets.”

    Flávio concentra discurso em economia e segurança

    Do outro lado da disputa, Claudio André avalia que Flávio Bolsonaro também teria reduzido o discurso a temas considerados centrais para a campanha.

    O plano de governo do candidato prevê medidas de redução do tamanho do Estado, mudanças fiscais, redução de despesas, alterações na área de segurança pública e propostas para a saúde.

    Para Claudio André, a estratégia de comunicação passou a priorizar uma conversa mais direta com o eleitor. “Flávio entendeu que ele devia reduzir dentro dessa polarização na mesma estratégia de ACM Neto. A conversa girando em torno da economia, a renda para a classe média e a pauta da saúde aparece e, sobretudo, a segurança pública.”

    Segundo ele, o movimento concentra a campanha em três grandes assuntos. “Então, ele reduz praticamente ali uma conversa mais ao pé do ouvido com três propostas.”

    “O presidente Lula enfrentará uma eleição muito difícil”

    A partir desse quadro, Claudio André avalia que o principal desafio de Lula está justamente na capacidade de alcançar o eleitor que não se identifica integralmente com nenhum dos dois polos.

    “Dentro dessa perspectiva, eu entendo que o presidente Lula enfrentará uma eleição muito difícil, em especial por essa dificuldade de falar para esse eleitorado pendular.”

    As pesquisas recentes ajudam a dimensionar a disputa. No Datafolha divulgado em 28 de setembro, Lula tinha 40% e Flávio 36% no primeiro turno; no segundo, os dois apareciam dentro da margem de erro.

    Outro levantamento, do BTG/Nexus, divulgado em 28 de setembro, apontou Lula com 42% e Flávio com 37% no primeiro turno. No segundo turno, o cenário também ficou dentro da margem de erro, com 46% para Lula e 44% para Flávio.

    Claudio André chama atenção, entretanto, para o comportamento dos indecisos e dos eleitores que ainda admitem votar branco ou nulo.

    “Outro movimento que a gente deve calcular é para onde irão os indecisos, inclusive aqueles que dizem que querem votar branco e nulo, que podem mudar o voto na reta final.”

    Decisão do voto pode ocorrer nos últimos dias

    Na avaliação do cientista político, parte significativa do eleitorado não acompanha diariamente as estratégias das campanhas e pode consolidar a escolha apenas nos últimos dias.

    “A gente está diante de uma eleição que, na reta final, na minha visão, ela coloca em aberto o quanto o presidente Lula terá capacidade.”

    Claudio André defende que, além das pesquisas estimuladas, seja observado o comportamento da intenção de voto espontânea e a movimentação dos eleitores até a votação.

    “É isso que a gente tem que olhar a partir de hoje nas pesquisas até os próximos três dias, até a sexta-feira, o quanto as pesquisas apontam para um crescimento efetivo, numérico, do presidente Lula na intenção de voto espontânea e também na estimulada e como ficará Flávio Bolsonaro.”

    O professor também cita os eleitores que ainda podem mudar de posição entre os candidatos. “Tem que entender como esses eleitores serão mobilizados na reta final.”

    Digital cresce, mas corpo a corpo permanece

    Outro ponto destacado por Claudio André é a transformação das campanhas eleitorais com o avanço das redes sociais. Para ele, o ambiente digital ganhou peso, mas não eliminou a importância do contato direto entre candidatos e eleitores.

    “Tem uma perspectiva de que o digital faz muita força. E, de fato, essa eleição talvez aumente ali o sarrafo da digitalização das campanhas.”

    Na avaliação dele, entretanto, o contato presencial continua desempenhando uma função própria. “Mas o corpo a corpo, a face a face, a conversa direta, ela, na minha visão, é insubstituível.”

    Claudio André afirma que o desafio dos candidatos, nos últimos dias antes da votação, será combinar as estratégias digitais com a presença física nas ruas. “Ainda o grande desafio das campanhas é novamente, agora que calibrou o digital, olhar até como é que farão as coisas novamente no presencial.”

    E resume o momento da disputa presidencial: “É voltar a vivenciar uma eleição mais física, mais próxima, com maior proximidade de sociabilidade. Eu acho que é o grande desafio nessa reta final, nos próximos dias.”

    Veja entrevista completa: