Especialista aponta riscos da queda da cobertura vacinal de doenças infecciosas
Entre 2018 e 2021, o país registrou mais de 39 mil casos de sarampo, doença que havia sido erradicada em 2016

Nos últimos três anos, o Brasil vem registrando queda na cobertura vacinal contra diversas doenças infecciosas graves, como sarampo, caxumba, rubéola, poliomielite e tuberculose. Os dados mais recentes do Ministério da Saúde mostram redução nos indicadores dos principais imunizantes previstos no calendário do Programa Nacional de Imunizações (PNI).
Um exemplo disso é a redução drástica da cobertura das duas doses do tríplice viral, responsável por prevenir o sarampo, a caxumba e a rubéola. A meta do Programa Nacional de Imunizações (PNI) é manter a cobertura acima de 95%. No entanto, a primeira dose da vacina caiu de 93,12%, em 2019, para 70,52% em 2021. No mesmo período, a segunda dose teve baixa de procura de 81,55% para 49,31%.
“Esses números são preocupantes e explicam o ressurgimento de doenças graves como o sarampo, extremamente contagiosa, cuja principal forma de prevenção é a vacina. Por isso, é fundamental que as crianças, que são mais vulneráveis à doença, sejam vacinadas e os adolescente e adultos que não receberam a dose também”, alerta a infectologista e gerente do serviço de imunização do Grupo Sabin, Ana Rosa dos Santos.
De acordo com o Ministério da Saúde, em 2015, o Brasil havia registrado os últimos casos de sarampo. No ano seguinte, o país chegou a receber o certificado internacional de eliminação do vírus. No entanto, entre 2018 e 2021, foram registrados 39,3 mil casos de sarampo e 40 óbitos devido à enfermidade no país. Em decorrência disso, o país perdeu o certificado de eliminação da doença em 2019.
Sarampo pode deixar sequelas graves
O sarampo se manifesta com tosse seca no início, febre acima de 38,5ºC, manchas vermelhas na pele, coriza, olhos avermelhados (conjuntivite não purulenta) e pequenos pontos brancos na mucosa da boca. Não existe tratamento específico e os sintomas tendem a desaparecer. No entanto, pode deixar sequelas graves, como atraso no crescimento, diminuição da capacidade mental, cegueira, surdez, encefalite grave, principalmente em adolescentes e adultos jovens, em geral, não vacinados. Ao longo dos anos, o vírus do sarampo pode causar uma infecção persistente muito grave do sistema nervoso central, a Panencefalite Esclerosante Subaguda(PES). “São casos raros, mas o risco não deve ser descartado”, explica a infectologista.
A vacina tríplice viral, que protege também contra o sarampo, deve ser administrada em duas doses, sendo a primeira aos 12 meses e a segunda entre 15 e 24 meses de idade. “Após 2 semanas da aplicação, a proteção é iniciada, e o efeito deve durar para a vida inteira. Para proteção de 95% o esquema da vacina de sarampo deve ser completo, ou seja, duas doses. Entretanto, em alguns casos de surto, o Ministério da Saúde tem realizado campanhas de vacinação como uma estratégia de proteção coletiva com a aplicação de uma dose adicional”, explica a médica.
Outra vacina que vem registrando uma redução importante na cobertura é a que previne contra a poliomielite, também chamada de pólio ou paralisia infantil, doença contagiosa e aguda, causada pelo poliovírus. Em 2018, a cobertura era de 89,54%. Em 2019, de 84,19%. No ano seguinte, de 76,05% e, em 2021, caiu para 66,62%. A meta de vacinação contra a doença é de 95% de todas as crianças menores de cinco anos de idade.
Poliomielite: risco de retorno
Desde 2016, o esquema vacinal contra a poliomielite passou a ser de três doses da vacina injetável — VIP (dois, quatro e seis meses) e mais duas doses de reforço com a vacina oral bivalente (gotinha) — VOP (15 meses e quatro anos de idade). A poliomielite pode causar paralisia e até mesmo a morte. Ainda que a maioria das pessoas infectadas não fique doente, elas transmitem o vírus para outras pessoas, que, se não estiverem vacinadas, correm muito risco. “É importante lembrar que até os anos 80, o Brasil chegou a registrar casos da doença. Muitas crianças morriam ou ficaram com sequelas graves”, aponta Ana Rosa.
No Brasil, o último caso de infecção pelo poliovírus selvagem ocorreu em 1989, na cidade de Souza (PB). Assim, o Brasil recebeu o certificado de erradicação da pólio em 1994. No entanto, existe o risco de importação de casos de países onde ainda há circulação endêmica do poliovírus selvagem, como algumas nações da Ásia e da África, por isso a importância da imunização em massa.
Já a cobertura vacinal da BCG, que previne as formas mais graves de tuberculose, em 2018, ficou acima de 95% do público-alvo. Depois disso, vem caindo a cada ano. Em 2019, foi de apenas 86,67%. No ano seguinte, passou para 74,03% e, em 2021, a procura pela vacina caiu ainda mais, para 65,63%. O imunizante é aplicado em recém-nascidos. O PNI tem como meta vacinar pelo menos 90% do público-alvo com a dose de BCG. Atualmente este grupo é formado por aproximadamente 2,8 milhões de bebês. Crianças de até 4 anos, 11 meses e 29 dias de idade, não vacinadas anteriormente, também podem receber a vacina.
Os números, de acordo com a especialista, são preocupantes e colocam o país em alerta. “É preciso reverter esse quadro o mais rápido possível. São doenças infecciosas graves, que muitas vezes nem ouvimos falar mais, seja porque deixaram de acometer as pessoas no país ou porque são poucos casos. No entanto, somente a vacinação pode realmente afastá-las”, alerta Ana Rosa.
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