Gestoras de Políticas para Mulheres pedem suspensão de portaria sobre aborto

    Ministério da Saúde estabeleceu novos procedimentos para interrupção de gravidez em casos de estupro, como permitir que vítima veja feto

    Foto: Carol Garcia/GOVBA

    Gestores de políticas para mulheres nos nove estados do Nordeste assinaram uma carta-manifesto que pede pela suspensão da Portaria 2.282 do Ministério da Saúde, publicada em 28 de agosto. O documento estabelece novos procedimentos para interrupção de gravidez em casos de estupro, circunstância já prevista pela legislação brasileira.

    O manifesto foi lido pela titular da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Bahia (SPM-BA), Julieta Palmeira, na manhã desta sexta-feira (4), durante lançamento do Grupo de Trabalho em Economia e Emprego da Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados.

    “Consideramos que as noas medidas previstas na portaria, além de causar constrangimento às mulheres e meninas em situação de violência sexual, podem resultar em aplicação do aborto inseguro, uma vez que, de acordo com o IPEA, 7% a 15% dos estupros no Brasil resultam em gravidez. Entendemos que nenhuma normativa deve dificultar ou impedir o exercício do direito”, argumentam as gestoras.

    Entre os novos procedimentos está o relato circunstanciado da situação produzido pela gestante, com descrição de local, dia e hora aproximada da violência sexual; tipo e forma de violência; descrição do(s) autor(es) do crime; identificação de testemunha, se houver. A portaria do Ministério da Saúde determina ainda que o médico emita parecer técnico após detalhada anamnese, exame físico geral, exame ginecológico, avaliação do laudo de ultrassonografia e exames complementares que forem realizados.

    A gestante também deve ser informada sobre a possibilidade de ver o feto ou o embrião através de ultrassonografia. Além disso, ela deve assinar um Termo de Responsabilidade, contendo advertência sobre crimes de falsidade ideológica e aborto caso o relato não seja verdadeiro. Também deve ser assinado um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

    A carta-manifesto foi recebida pela deputada Professora Dorinha (DEM), secretária da Mulher na Câmara. Segundo ela, um ofício já foi encaminhado ao presidente da Casa, deputado Rodrigo Maia (DEM), questionando a portaria e solicitando apoio para revogação do dispositivo. Em público, o democrata disse considerar a portaria “completamente ilegal” e um “absurda”, e defendeu que seja anulada. Além disso, outra movimentação já foi feita contra a portaria: o Instituto Brasileiro das Organizações Sociais de Saúde (Ibross) questionou a medida no Supremo Tribunal Federal.

    Assinaram a carta-manifesto as secretárias de Políticas para as Mulheres: Julieta Palmeira, da Bahia; Sílvia Maria Cordeiro, de Pernambuco; Lídia Moura, da Paraíba; Denise Aguiar, do Ceará; Nayra Monteiro; do Maranhão; Maria José da Silva, de Alagoas; Eveline Macedo, do Rio Grande do Norte; Zenaide Lustosa, do Piauí; Leda Lúcia Couto de Vasconcelos, de Sergipe.