Diagnóstico da endometriose avança, mas demora ainda prejudica mulheres
Durante o Março Amarelo, especialistas alertam sobre a importância da detecção precoce

A endometriose, doença ginecológica crônica que afeta cerca de oito milhões de brasileiras, pode levar até 11 anos para ser diagnosticada, comprometendo a qualidade de vida e a fertilidade de muitas mulheres. Durante o Março Amarelo, mês de conscientização sobre a doença, especialistas reforçam a necessidade de ampliar o acesso a exames de imagem especializados, fundamentais para a identificação precoce da condição.
Caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora do útero, a endometriose pode se manifestar em diversos órgãos, como ovários, bexiga e intestino, causando dor pélvica crônica, cólicas menstruais intensas, dor durante a relação sexual e dificuldade para engravidar. Estudos indicam que até 50% das mulheres com endometriose enfrentam infertilidade.
Demora no diagnóstico prejudica tratamento
Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2021, mais de 26,4 mil atendimentos relacionados à endometriose foram registrados no SUS, e cerca de oito mil mulheres precisaram ser internadas devido à gravidade da doença. No entanto, especialistas alertam que esses números podem ser ainda maiores, já que muitas mulheres convivem com sintomas sem receber um diagnóstico correto.
“O diagnóstico precoce é essencial para evitar o agravamento dos sintomas e possibilitar um tratamento adequado. Muitas mulheres convivem com dores intensas sem saber que têm endometriose”, explica a médica radiologista Luciana Matteoni, especialista em diagnóstico por imagem.
A demora no diagnóstico ocorre, em grande parte, porque os sintomas da endometriose são frequentemente confundidos com outras condições, como síndrome do intestino irritável e doenças inflamatórias pélvicas. Além disso, a normalização da dor menstrual faz com que muitas mulheres só procurem ajuda médica quando os sintomas já estão avançados.
Tecnologia facilita detecção
Os exames de imagem têm sido fundamentais para acelerar o diagnóstico da endometriose e mapear sua extensão no corpo da paciente. A ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal, por exemplo, tem se consolidado como o exame de primeira escolha, pois permite uma avaliação detalhada dos órgãos pélvicos e possíveis aderências.
Já a ressonância magnética com protocolo dedicado para endometriose é um exame de grande valor para o estadiamento da doença, sendo especialmente útil para avaliar o acometimento de nervos e da parede pélvica. “Exames de imagem bem conduzidos fazem toda a diferença na identificação da doença e no planejamento terapêutico”, destaca a Drª Luciana Matteoni.
Especialista no tema, a médica radiologista apresentou três estudos no Congresso Internacional de Imagem da Endometriose (EICE), realizado nos dias 8 e 9 de março de 2025, em Miami, nos Estados Unidos. Suas pesquisas abordam o aprimoramento da ultrassonografia para diagnosticar a endometriose profunda e retrocervical, além de um estudo detalhado sobre os endometriomas, cistos ovarianos causados pela doença. Os trabalhos destacam a importância da capacitação médica e do uso de técnicas avançadas para um diagnóstico mais preciso e um tratamento eficaz.
Qualidade de vida
Embora a endometriose não tenha cura, o tratamento adequado pode controlar os sintomas e melhorar significativamente a qualidade de vida da paciente. As opções incluem medicamentos hormonais, como anticoncepcionais; tratamento cirúrgico para casos mais graves; e acompanhamento multidisciplinar, incluindo fisioterapia pélvica e orientação nutricional.
Para muitas mulheres, a cirurgia para remoção das lesões da endometriose pode ser a melhor alternativa para aliviar os sintomas e preservar a fertilidade. No entanto, o sucesso do tratamento depende de um diagnóstico correto e precoce.
“A dor intensa não é normal e não deve ser ignorada. Mulheres que apresentam cólicas menstruais incapacitantes, dor durante as relações sexuais ou desconforto ao evacuar ou urinar, devem procurar um especialista. Quanto mais cedo identificarmos a endometriose, mais cedo podemos tratar e melhorar a qualidade de vida da paciente”, conclui a sócia da Clínica Matteoni.
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