Herdeiro do carlismo, ACM Neto enfrenta turbulências na hora ‘H’

    Tentativa de desbancar o PT na Bahia esbarra em novos desgastes judiciais e episódios nos bastidores

    Foto: Reprodução/Youtube

    A busca pelo Palácio de Ondina tem representado um longo período na carreira política do ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil). Depois de governar a capital por oito anos e deixar o cargo com ampla aprovação, o herdeiro do carlismo acumulou uma série de polêmicas enquanto nutre o sonho de se tornar governador da Bahia, seguindo os passos do avô.

    Em 2022, quando tentou pela primeira vez desbancar a hegemonia do Partido dos Trabalhadores no estado, ACM Neto se envolveu em uma controvérsia sobre autodeclaração racial. A indicação como pardo junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) gerou desgastes na campanha, trazendo visibilidade a um tema até então pouco explorado no debate eleitoral. A posterior derrota para Jerônimo Rodrigues (PT) acabou confirmando o impacto da polêmica no resultado das urnas.

    Após um período de menor exposição no cenário estadual, o ex-prefeito retomou a articulação de seu projeto político para a Bahia buscando equacionar o episódio. Ele alterou sua autodeclaração para branco, justificando que o registro original no Instituto Pedro Melo, órgão vinculado à Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), constava como pardo. Na ocasião, o político negou qualquer intenção de obter favorecimento político ou financeiro em decorrência do cadastro.

    Banco Master e Operação Overclean

    Nos episódios seguintes, os novos revezes ligados ao nome do ex-prefeito passaram a envolver o âmbito judicial. Citado na Operação Overclean, que apura desvios de recursos públicos, fraudes em licitações, corrupção e lavagem de dinheiro, ACM Neto foi alvo de um pedido de busca e apreensão formulado pela Polícia Federal. O pleito, contudo, foi indeferido pelo ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF).

    Além da citação na investigação federal, o indeferimento da medida por um magistrado indicado durante a gestão de Jair Bolsonaro adicionou um elemento de sensibilidade política à campanha. O episódio ocorre em um momento em que a candidatura do União Brasil busca manter distanciamento da postulação do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República.

    Paralelamente, as conexões com o campo oposicionista nacional se estendem a outras frentes de apuração. O nome do ex-prefeito também figurou em desdobramentos da Operação Compliance Zero, que investiga crimes de corrupção e lavagem de dinheiro relacionados às operações do Banco Master, de propriedade de Daniel Vorcaro. Para Neto, os vazamentos seletivos tentam interferir nas eleições da Bahia.

    Operação na casa de Wagner e blindagem no STF

    O cenário ganhou contornos ainda mais críticos com o contraste nas decisões do Supremo Tribunal Federal envolvendo lideranças baianas. Na Operação Compliance Zero, o senador Jaques Wagner (PT) foi surpreendido pela Polícia Federal em sua residência após o ministro André Mendonça autorizar o mandado de busca e apreensão. Assim como ACM Neto, o parlamentar petista teve o nome citado em apurações ligadas ao empresário Daniel Vorcaro.

    Contudo, a diferença de tratamento dispensada pelas decisões da Corte virou combustível político. Enquanto Wagner foi alvo da medida cautelar autorizada por Mendonça, o pedido contra ACM Neto no âmbito da Operação Overclean acabou negado por Nunes Marques. A assimetria reacendeu questionamentos de aliados governistas sobre a imparcialidade do tribunal e levantou suspeitas de favorecimento na condução das investigações.

    O debate sobre a postura da Suprema Corte envolveu ainda citações a outros magistrados, como Dias Toffoli e Luiz Fux, além das apurações associadas ao ministro Alexandre de Moraes e ao banqueiro Daniel Vorcaro. O impasse atingiu seu ponto máximo na última terça-feira (15), quando um pedido de vista do ministro Flávio Dino suspendeu o julgamento no plenário, empurrando a resolução das controvérsias para depois do período eleitoral.

    Denúncia de assédio

    Além dos embates na esfera judicial, a campanha do União Brasil enfrentou turbulências nos bastidores a poucos dias do pleito. A candidatura sofreu impactos após a divulgação de uma denúncia de assédio feita por uma produtora.

    De acordo com informações do site Política Ao Vivo e confirmada pelo bahia.ba, o episódio teria provocado uma debandada na equipe de produção na última terça-feira (19), restando 19 dias para a votação do primeiro turno. A assessoria de ACM Neto não se pronunciou sobre o assunto.