Publicado em 03/04/2020 às 18h00.

História ensina como superar crise parecida com a do novo coronavírus

Com características semelhantes à Covid-19, Gripe Espanhola matou mais de 200 baianos entre 1918 e 1919

Estela Marques
Foto: Fotos Públicas/NIAID
Foto: Fotos Públicas/NIAID

 

Uma doença do trato respiratório, que ataca principalmente nariz, garganta e pulmão. Nenhuma descoberta confiável que assegure um remédio específico para seu tratamento. O jeito é atacar os sintomas: dor de cabeça e no corpo, congestionamento nasal. A melhor solução parece ser uma só: não sair de casa.

Estaríamos falando com tranquilidade da Covid-19, mas, na verdade, o foco da conversa estava sendo a epidemia de Gripe Espanhola que atingiu os baianos entre setembro de 1918 e janeiro de 1919. A “vantagem” de assistir a um “remake” do filme que passou 100 anos atrás é que a gente pode aprender com a história e evitar os erros do passado.

“Tem um historiador norte-americano, Rosemberg, que diz que as epidemias se desenrolam como num ato de uma peça. O primeiro ato é a demora de se admitir a existência da epidemia. Geralmente, quem dá o alarme disso nos tempos contemporâneos é a imprensa, que denuncia o recorrente número de adoecimentos e mortes por determinada doença”, lembra Christiane Maria Cruz de Souza, doutora em História das Ciências e da Saúde.

O segundo ato é entender que doença é aquela e por que está matando tanta gente. Os protagonistas nesse momento são médicos, cientistas e autoridades sanitárias – categorias que vinham sendo alvo de descrédito constante de um certo grupo da sociedade.

No terceiro ato, a sociedade começa a buscar caminhos para controlar a doença. O último ato é o fim da incidência da doença.

“Acaba porque contamina um número grande de pessoas. Chega um ponto que a doença fica estanque, não tem mais quem contaminar”, explica a historiadora.

No caso da gripe espanhola, foram três meses de epidemia entre a chegada do navio inglês Demerara, que desembarcou com doentes em setembro, o pico de contaminações em outubro e a raridade de casos em dezembro. Mais de 200 pessoas morreram.

Subnotificação dos casos

Os números não são confiáveis, de acordo com Christiane, porque já naquela época havia subnotificação – assim como atualmente também tem. O principal motivo é a falta de testes, situação que acomete todos os países do mundo.

“Hoje a gente não tem como produzir esses insumos necessários, porque não houve investimento nisso. Inclusive, tinha cientista fazendo pesquisa sobre a Covid-19 que a bolsa dele foi cortada. Estamos nesse tipo de sociedade. Estamos desaparelhados. O que a gente precisa vem de fora”, criticou a doutora Christiane Cruz, que também é membro do Núcleo de Tecnologia em Saúde do Ifba.

E esse desmonte da ciência brasileira é uma das poucas, se não a única diferença, entre a a gripe espanhola e a Covid-19. De acordo com a especialista, essa é a primeira vez que ela vê o questionamento ao que diz a ciência, principalmente em se tratando de um governante.

No âmbito federal, o presidente Jair Bolsonaro tem desautorizado frequentemente as recomendações do seu ministro da Saúde, o médico e deputado licenciado Luiz Henrique Mandetta, sobre distanciamento social como ferramenta para impedir a propagação do novo coronavírus. Na opinião pública, no entanto, a maior parte dos brasileiros dá atenção ao que diz o ministro e reprova a postura do presidente.

Teremos uma próxima epidemia

Sem alarmismo, mas a pandemia do novo coronavírus certamente não será a última que haveremos de enfrentar. Muito graças à expansão do homem sobre as partes habitáveis do planeta, a tendência é que doenças continuem surgindo.

“Na medida que o ser humano começou a praticar agricultura, domesticar animais e fixar residência em determinado lugar, começou a intervir na natureza, e nessa intervenção também trouxe doenças. Sujou o meio ambiente, acumulou lixo, poluiu as águas, interagiu com animais, tudo isso traz doenças”, explica Christiane Cruz, doutora em História das Ciências e da Saúde.

Mas não é por isso que você precisa entrar em pânico. Dá pra se conscientizar quanto à gravidade da situação sem necessariamente se desesperar.

O segredo, de acordo com Christiane, é se informar em canais confiáveis e de qualidade. Além disso, não esquecer também que temos plena condição de enfrentar o que for necessário.

“Existem pessoas que têm conhecimento dirigindo tudo, pensando as coisas, a melhor forma de controlar a epidemia. Agora, somos seres vivos, estamos sujeitos a adoecer. Temos que fazer com que a doença não chegue até a gente, nem transmitir para os outros”, acrescentou.



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