O volume de litígios familiares levados aos tribunais brasileiros atingiu marcas históricas. Dados do balanço parcial do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), divulgado em outubro de 2025, revelam que as varas especializadas registraram 1,62 milhão de ações em tramitação no país, um crescimento de aproximadamente 6% em relação ao ano anterior.
As disputas envolvendo a guarda de filhos lideraram essa escalada, com alta de 14% nos novos processos, seguidas pelos pedidos de pensão alimentícia, que avançaram 11%. Nesses bastidores de sobrecarga do Judiciário e de elevador desgaste emocional das partes, o diálogo e a busca por vias consensuais surgem não apenas como alternativa, mas como uma urgência prática.
Veja também: Centro de Inteligência atua para reduzir demandas repetitivas no TJ
Em conversa com o bahia.ba, o advogado Lucas Menezes, mestre em Direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e especialista com mais de 15 anos de atuação em Direito Civil, Família e Sucessões, analisou esse cenário de explosão de ações judiciais e defendeu que a judicialização tradicional é incapaz de pacificar as relações de parentesco.
“A solução quase sempre não está no Judiciário. Vou até um pouquinho mais além: no meu modo de ver, o Poder Judiciário é a pior porta para você resolver um problema de família”, avaliou Lucas Menezes. “Nós precisamos pensar em outros caminhos para resolver um conflito de família.”
Caminho consensual e custo da morosidade
Diante do gargalo enfrentado pelas varas de família, a advocacia vem reformulando suas táticas de atuação, migrando do modelo litigioso para métodos focados na mediação, negociação direta e acompanhamento multidisciplinar. Segundo Lucas Menezes, a mudança de estratégia jurídica busca ir além do pedido formal de uma petição inicial para atacar a real origem das divergências interpessoais.
“Hoje, há uma mudança de pensamento. O entendimento é de que a conversa precisa acontecer e a ida à Justiça precisa ser a última alternativa”, explica Lucas.
O especialista reforçou, ainda, que a insistência em manter disputas de família sob a tutela exclusiva de decisões judiciais costuma gerar travas processuais que arrastam por anos sem entregar pacificações reais.
“Um dia desses fiz uma postagem sobre um inventário que demorou 18 anos no Poder Judiciário. Um processo que demorou 18 anos e acabou agora, você me pergunta: foi resolvido? Não foi”, enfatizou o advogado. “A gente conseguiu só, no máximo, extinguir aquele processo, mas o conflito familiar ainda permanece”.
Com base nos dados de crescimento dos litígios no país e na necessidade de preservar a convivência familiar, o jurista defendeu, por fim, a consolidação definitiva da cultura do consenso na rotina jurídica.
“Sem dúvida, o caminho consensual para o Direito de Família é o melhor caminho, é a melhor alternativa. A gente precisa cada vez mais estimular isso”, concluiu Lucas Menezes.
Confira a entrevista:

