A vice-prefeita de Salvador, Ana Paula Matos, afirmou que a pobreza no Brasil apresenta um forte recorte de gênero e atinge de forma mais intensa as mães solo, especialmente mulheres negras. A declaração foi feita durante entrevista nesta quinta (24) ao .ba ao vivo, do bahia.ba, ao comentar as ações do município voltadas às famílias em situação de vulnerabilidade.
Segundo Ana Paula, dados do Cadastro Único nacional e de Salvador apontam que mais de 85% das mulheres com as menores rendas são chefes de famílias monoparentais, ou seja, responsáveis sozinhas pelos filhos.
“É um perfil mesmo feminino da pobreza. E quanto menor a renda, quanto maior a pobreza, maior o índice dessa mulher”, afirmou.
Mulheres negras são maioria entre vítimas de violência
A vice-prefeita também relacionou a vulnerabilidade econômica à violência contra a mulher. Segundo ela, dados da Casa da Mulher Brasileira mostram que 90,07% das mulheres atendidas por situações de violência são negras e mães solo.
“Isso é uma realidade que não é local, é uma realidade nacional”, declarou Ana Paula.
Para a vice-prefeita, a situação pode ser compreendida a partir do conceito de interseccionalidade, quando diferentes fatores de vulnerabilidade se sobrepõem.
“Isso tem um fenômeno que é na interseccionalidade. É você sofrer nas várias dores da vulnerabilidade social”, explicou.
Políticas públicas com foco nas mulheres
Ana Paula afirmou que a Prefeitura já considerava essa realidade antes mesmo da consolidação dos dados utilizados atualmente para mapear a vulnerabilidade social.
Segundo ela, essa preocupação também aparece em programas de regularização fundiária. Nos casos de entrega de títulos de posse ou propriedade, o município prioriza o registro no nome da mulher.
“Quando a gente faz a entrega do título de posse ou de propriedade de uma terra, que a gente tem alguns programas de regularização fundiária, a gente coloca o nome da mulher”, disse.
A estratégia, segundo a vice-prefeita, busca garantir maior segurança para mulheres responsáveis pelos filhos em situações de ruptura familiar.
“Porque, eventualmente, se o homem for construir uma outra família, aquela mãe fica com os filhos”, afirmou.
Mães atípicas também enfrentam maior vulnerabilidade
A vice-prefeita também chamou atenção para a realidade das mães que cuidam de filhos com deficiência.
“Quando tem uma mãe atípica, que tem um filho com deficiência, normalmente é a mãe que cuida”, declarou.
Ana Paula ressaltou que existem pais presentes e participativos, mas afirmou que, proporcionalmente, a vulnerabilidade econômica ainda está fortemente associada à condição de mãe solo.
“Tem pais maravilhosos, tem pais presentes, mas percentualmente o índice de pobreza está associado a ser uma mãe, uma mãe solo. É da realidade do nosso país”, afirmou.
Segundo ela, a sobrecarga de cuidados também pode dificultar a entrada ou permanência dessas mulheres no mercado de trabalho. “Porque às vezes ela não pode nem trabalhar porque ela está cuidando do filho”, explicou.
Para Ana Paula, o desafio das políticas públicas é justamente compreender essas diferentes dimensões da vulnerabilidade para formular ações capazes de atender as famílias de forma integral.

