Publicado em 18/03/2016 às 21h00.

Como seu comportamento interfere no atual caos moral e ético?

A discussão importante sobre a política (e que todos deveríamos ter) acaba perdendo força para a falta de limites de entender o espaço do outro

Priscila Almeida
bandeira quebrada
Imagem ilustrativa

 

O que é limite? Se formos a um dicionário veremos que é uma linha que determina uma extensão espacial ou que separa duas extensões. Então, limite tem relação intrínseca com a noção de espaço, de “beirada”, de borda. Limite é o ponto espacial que separa um ponto de outro.

Qual limite entre o bem e o mal, o certo e o errado, o pouco e o equilíbrio, o muito e o equilíbrio? O limite estaria no lugar do equilíbrio?

A todo tempo na nossa vida temos que lidar com escolhas que nos fazem pensar sobre o nosso querer e o querer do outro. Quando levamos em consideração a ética, tendemos a analisar os limites das nossas escolhas em relação aos benefícios e malefícios que estas causariam ao outro ao nosso lado.

Saber o limite com relação aos nossos comportamentos é um trabalho complexo e com muitas variáveis. As leis nos ajudam a ter um norte do que é importante a todos os cidadãos estarem atentos. É até engraçado pensar que alguém precisou escrever determinadas situações para que as pessoas possam conviver de forma mais tranquila. Não acham?

No Brasil, costumamos dizer que as leis não “pegam”, ficam só no papel. Ou seja, dizemos que somos um povo que temos dificuldades em lidar com limites. Cotidianamente vemos autoridades corrompidas por poder ou dinheiro e assim, liberam as leis das suas funções.

Como lei não funciona direito, temos que inventar medidas punitivas. Assim, para conseguir uma diminuição na quantidade de acidentes de trânsitos, na qualidade da mobilidade das cidades, por exemplo, se faz necessário lotar as cidades e estradas de radares para punir financeiramente aqueles que continuam sem respeitar a lei. Recentemente, foi até necessário aumentar os valores das multas para que a punição realmente tivesse seu papel garantido.

Não sou nenhuma crítica política e econômica, longe disto, sou leiga no assunto, mas enquanto psicóloga noto os sentimentos exacerbados das pessoas ao falarem do assunto. Não somos um país educado politicamente, na verdade não somos um país voltado para nenhum tipo de educação, vamos falar a verdade, não é mesmo?

 

A corrupção, a perversão, o circo que vemos

em Brasília, infelizmente, nos representa

 

A discussão importante sobre a política e que todos deveríamos ter, acaba perdendo força para a falta de limites de entender o espaço do outro.  Temos perdido a sensibilidade de perceber que divergências existem e são muito importantes. São as divergências, diferenças, singularidades que geram beleza e criatividade à vida.

Beleza que não pode ser vista, pois enxergar a diferença é também visualizar um possível fracasso seu. E estamos vivendo um momento em que o fracasso inexiste. Todos temos que ser completos, felizes, pessoas de sucesso absoluto. Desta forma, alimentamos a idéia absurda de que podemos tudo.

Quando eu era pequena, todos os dias ao chegar à escola todos os alunos aguardavam o momento de hastear a bandeira da cidade, do estado e do país e cantar os hinos respectivos. Todos em pé, com a mão no peito cantando. Era trabalhada na escola a importância do nosso país, quantas belezas e riquezas tínhamos, o respeito à natureza, ao outro e nossos direitos e deveres.

Hoje, nada disso mais importa. Os pais e escolas estão preocupados apenas em encher as crianças de conteúdo para que passem no vestibular, façam faculdade e sejam bem-sucedidos nas suas carreiras. Tem sido cada vez mais frequente ouvirmos no consultório que não há horário na agenda das crianças para fazer terapia. Ou seja, problemas emocionais, problemas de saúde são suprimidos, tamponados pelo excesso de afazeres. Não há lugar para falar da falta, da dificuldade, da diferença, então não há lugar para limite.

Vivemos uma crise moral e ética no Brasil. A corrupção, a perversão, o circo que vemos em Brasília, infelizmente, nos representa. Somos um país em que a educação e a lei não têm sentido. Estamos sangrando, estamos enlaçados de forma perversa. Não existe lei porque cada um faz sua lei. Não há limite, não há lei.

Temos e devemos repensar tudo isto. Se cada pessoa começar a passar um tempinho do seu dia pensando em si próprio já é um bom começo. Conhecer-nos, nos observar garante um espaço para vermos nossas faltas, nossos erros e com isto, podemos ouvir e entender melhor o nosso próximo.

Devemos cobrar mais dos políticos, das escolas, dos policiais, da justiça, mas antes de qualquer cobrança externa é preciso uma interna. Como anda sua relação com os limites? Converse consigo, precisa saber quais são os seus limites para saber que eles existem para o outro também.

 

Priscila Almeida

Priscila Almeida é psicóloga clínica especialista em saúde mental, psicanálise e em trânsito. Escritora e editora do Blog Papos de Psico.

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