Publicado em 27/06/2026 às 06h00.

50 anos de Wagner Moura: relembre cinco papéis marcantes e menos comentados

Seleção destaca trabalhos que ajudaram a consolidar a trajetória do ator no Brasil e no exterior

João Lucas Dantas
Foto: Tristan Fewings/Getty Images

 

Aos 50 anos de idade, completados neste sábado (27), Wagner Moura figura entre os atores brasileiros mais reconhecidos no Brasil e internacionalmente, principalmente após o estrondoso sucesso de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator em 2026.

Nascido em Salvador e formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), o ator ganhou projeção nacional ainda no início dos anos 2000, ao participar de grandes produções como o filme Carandiru (2003), de Hector Babenco, e da novela Paraíso Tropical (2007), da TV Globo, além dos seus papéis de destaque em Tropa de Elite (2007), de José Padilha, e como Pablo Escobar em Narcos (2015 – 2016), da Netflix.

Para celebrar as cinco décadas de um dos maiores atores da sua geração, o bahia.ba separa cinco papéis menos comentados de Moura, que tiveram suma importância para o seu reconhecimento nacional e internacional, mas que não são tão destacados.

Wagner Moura, Alice Braga e Lázaro Ramos em ‘Cidade Baixa’
Foto: Reprodução/ VideoFilmes

1. Cidade Baixa (2005)

Lançado em 2005, Cidade Baixa representa um dos primeiros grandes marcos da trajetória cinematográfica de Wagner Moura. Dirigido pelo cineasta baiano Sérgio Machado (confira entrevista com o diretor para os 20 anos do longa), o drama acompanha Deco (Lázaro Ramos) e Naldinho (Moura), amigos de infância que sobrevivem realizando pequenos fretes em um barco e aplicando golpes na região da Cidade Baixa, em Salvador.

A rotina dos dois se transforma completamente quando eles conhecem Karinna (Alice Braga), uma stripper determinada a mudar de vida. A chegada da jovem desencadeia um intenso triângulo amoroso e expõe tensões relacionadas à amizade, ao desejo e à sobrevivência em meio à pobreza, à violência e à marginalização social.

O filme foi produzido em um momento de renovação do cinema brasileiro e conquistou reconhecimento internacional ao ser exibido na prestigiada mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes de 2005, onde conquistou o Prêmio da Juventude (Prix de la Jeunesse).

A produção, assinada pela Videofilmes e pela Buena Onda, também chamou atenção pela forte identidade baiana, reforçada pela trilha sonora de Carlinhos Brown, em parceria com o músico e compositor Beto Vilares, e pela ambientação em locais emblemáticos de Salvador, como a região do Mercado Modelo e da própria Cidade Baixa.

O ator vivia um período de ascensão após sua estreia no cinema em Abril Despedaçado (2001), de Walter Salles, e após o papel em Carandiru. A proximidade cultural entre o elenco e a equipe criativa, formada majoritariamente por artistas baianos, contribuiu para a construção de uma atmosfera de grande naturalidade. A química entre Moura e Lázaro Ramos, elemento central da narrativa, tornou-se um dos principais trunfos do filme.

No papel de Naldinho, Wagner entrega uma atuação marcada por contrastes. Ao mesmo tempo em que interpreta um homem impulsivo, violento e acostumado à dureza da vida nas periferias, o ator revela fragilidades e afetos raramente expostos pelo personagem. A composição exigiu um mergulho profundo na realidade social retratada pelo filme, com domínio do sotaque regional, das gírias locais e de uma expressividade corporal que transmite tanto agressividade quanto vulnerabilidade.

Para a sua carreira, o filme foi decisivo. Antes de se tornar um fenômeno nacional com Tropa de Elite, o ator já demonstrava neste longa uma versatilidade impressionante e um compromisso rigoroso com a construção de personagens complexos. A produção foi amplamente aclamada, consolidando a reputação de Moura como um dos nomes mais promissores do cinema brasileiro contemporâneo.

Wagner Moura como Marcelo Nascimento da Rocha
Foto: Reprodução

2. VIPs (2011)

Lançado em 2011, VIPs é um dos trabalhos mais ousados e menos lembrados da carreira de Wagner. Dirigido por Toniko Melo e produzido pela O2 Filmes, o longa é inspirado na história real de Marcelo Nascimento da Rocha, um dos estelionatários mais conhecidos do país.

A trama acompanha a trajetória do personagem desde a infância no interior do Paraná até sua ascensão como um golpista profissional, capaz de assumir diferentes identidades e circular entre empresários, celebridades e integrantes da alta sociedade brasileira.

O ponto alto da narrativa é a reconstituição do episódio em que Marcelo se passou por Henrique Constantino, herdeiro da Gol Linhas Aéreas, durante o Carnaval de Recife, conseguindo acesso a festas exclusivas e enganando dezenas de pessoas antes de ser desmascarado pela imprensa. O filme mistura drama, suspense e humor ácido para retratar a vida de um homem movido pela compulsão de inventar versões de si mesmo.

O desafio era enorme: interpretar um personagem que vive permanentemente encenando, transitando entre múltiplas personalidades ao longo do filme. Mais do que viver um golpista, Wagner precisou construir um homem cuja identidade é, por natureza, fragmentada.

Sua atuação em VIPs é marcada justamente pela habilidade de transformar pequenos gestos, sotaques e posturas corporais conforme as diferentes personas criadas por Marcelo. Em determinados momentos, ele se apresenta como piloto, empresário ou integrante da elite econômica, sempre adaptando voz, comportamento e linguagem.

O longa revelou uma faceta menos óbvia de seu trabalho, a capacidade de combinar drama psicológico, ironia e humor. Em vez da intensidade física que marcaria outros personagens, aqui o ator trabalha sobretudo com nuances emocionais e manipulação psicológica, sustentando praticamente sozinho o filme.

A atuação de Moura foi amplamente elogiada e lhe rendeu reconhecimento em premiações nacionais, incluindo o prêmio de Melhor Ator no Festival do Rio, reforçando sua reputação como um intérprete versátil capaz de flertar com a comédia dramática e o suspense.

Wagner Moura como Donato em ‘Praia do Futuro’
Foto: Reprodução

3. Praia do Futuro (2014)

Lançado em 2014, Praia do Futuro marca uma das incursões mais sensíveis e introspectivas da carreira de Wagner no cinema autoral internacional. Dirigido pelo cearense Karim Aïnouz, o filme é uma coprodução entre Brasil e Alemanha e acompanha a trajetória de Donato, um salva-vidas de Fortaleza que, após falhar ao tentar resgatar um homem do afogamento, passa a ser consumido pela culpa.

Esse evento desencadeia uma ruptura em sua vida, levando-o a abandonar o Brasil e recomeçar na Europa ao lado de Konrad (Clemens Schick), um alemão com quem viveu um breve romance no passado. A narrativa também acompanha Ayrton (Jesuíta Barbosa), irmão mais novo de Donato, que viaja tempos depois em sua busca, criando uma história atravessada por separações, afetos interrompidos e deslocamentos emocionais.

A produção foi selecionada para a competição oficial do Festival de Berlim de 2014, onde disputou o Urso de Ouro, consolidando a presença do cinema brasileiro em circuitos de prestígio internacional. Filmado entre Fortaleza e Berlim, o longa aposta em uma linguagem visual marcada por contrastes. O calor e a abertura do litoral cearense em oposição ao frio e à rigidez urbana alemã. O filme recebeu atenção da crítica estrangeira, especialmente pela direção de Aïnouz e pela entrega silenciosa de Moura em um papel de forte contenção emocional.

No papel de Donato, constrói uma atuação profundamente econômica e silenciosa. O personagem é marcado por poucas palavras e pela comunicação constante através do corpo e do olhar. Na primeira parte do filme, ambientada em Fortaleza, ele equilibra fisicalidade e contenção emocional, especialmente nas cenas de salvamento no mar, que exigem precisão corporal e realismo. Já na segunda parte, em Berlim, o desafio se desloca para a expressão de um homem estrangeiro em todos os sentidos: linguístico, cultural e afetivo.

Embora Praia do Futuro não tenha tido grande impacto comercial, ele desempenha um papel relevante na trajetória de Wagner ao consolidá-lo como um ator de alcance internacional afinado com o cinema de autor. A recepção crítica destacou especialmente sua capacidade de sustentar uma narrativa quase inteira a partir de expressões mínimas, reforçando sua versatilidade em papéis menos explosivos e mais introspectivos.

Wagner Moura como Lobo Mau em ‘Gato de Botas 2: O Último Desejo’
Foto: Reprodução

4. Gato de Botas 2: O Último Pedido (2022)

Lançado no final de 2022, Gato de Botas 2: O Último Pedido é uma animação da DreamWorks dirigida por Joel Crawford que marca uma nova e aclamada fase da franquia derivada do universo de Shrek. Na história, o Gato de Botas descobre que já utilizou oito de suas nove vidas e passa a ser perseguido pela ideia da morte iminente.

Em busca de uma solução, ele parte em uma jornada até a mítica Fonte dos Desejos, enquanto enfrenta um inimigo incomum: o Lobo Mau, que se revela como a personificação da Morte. Nesse contexto, Wagner Moura dá voz original em inglês ao antagonista, em um papel que introduz um tom assustador, maduro e filosófico ao universo da franquia.

A produção foi um estrondoso sucesso comercial e de crítica, arrecadando cerca de US$ 484 milhões mundialmente e recebendo indicações a prêmios importantes da indústria, como o Oscar de Melhor Animação. O longa foi amplamente elogiado por seu visual estilizado e por sua abordagem profunda sobre mortalidade e o valor da vida.

Veja trecho da dublagem:


A participação de Wagner Moura chama atenção por se tratar de um ator brasileiro interpretando um personagem de destaque na versão original em inglês — algo raro em produções de grandes estúdios hollywoodianos. Ele foi convidado diretamente pela DreamWorks para dar voz ao vilão, sem processo de seleção, o que indica o reconhecimento do estúdio por seu calibre dramático e timbre vocal diferenciado.

No papel da Morte, Wagner constrói uma performance impactante baseada na voz, com um tom grave, controlado e ameaçador que rouba a cena a cada aparição (marcada pelo icônico assobio do personagem). O impacto desse trabalho na trajetória do ator foi significativo por ampliar sua presença no mercado internacional e lhe render uma indicação ao Annie Awards em 2023, a premiação mais importante do cinema de animação mundial.

Wagner Moura e Elizabeth Moss em ‘Iluminadas’
Foto: Reprodução

5. Iluminadas (2022)

Lançada em 2022 pela Apple TV+, Iluminadas (Shining Girls) é uma minissérie de suspense e ficção científica baseada no livro homônimo de Lauren Beukes. A trama acompanha uma série de assassinatos brutais cometidos ao longo de diferentes períodos temporais por um serial killer (Jamie Bell) capaz de viajar no tempo.

A única sobrevivente de um dos ataques, Kirby Mazrachi (Elisabeth Moss), passa a investigar o caso anos depois, mesmo lidando com traumas, lapsos de memória e realidades que mudam constantemente ao seu redor. Nesse processo, ela se une ao repórter investigativo Dan Velázquez, interpretado por Wagner Moura, um jornalista experiente e obstinado do Chicago Sun-Times nos anos 1990 que a ajuda a conectar os eventos aparentemente desconexos.

A série foi criada por Silka Luisa e conta com a produção executiva da própria Elisabeth Moss e de Leonardo DiCaprio. Filmada em Chicago, a produção se destacou pela atmosfera densa de thriller policial combinada com uma narrativa não linear complexa. Concebida como uma minissérie de história fechada, a obra consolidou a presença de Wagner Moura em produções televisivas de prestígio no mercado norte-americano.

No papel de Dan Velázquez, Wagner Moura interpreta um jornalista marcado pelo desgaste profissional, problemas pessoais e um faro investigativo impecável. Para compor o papel, Moura trabalhou uma interpretação contida, focada na escuta atenta, na construção de pistas e no realismo dos profissionais de imprensa da década de 1990.

A atuação se destaca pela fluidez absoluta no uso do inglês e pela excelente dinâmica de cena com Elisabeth Moss, servindo como a âncora racional de Kirby em um mundo que está desmoronando. Iluminadas reforçou a posição de Wagner como um ator versátil no mercado de streaming global, capaz de transitar com maestria por gêneros desafiadores como a ficção científica e o suspense psicológico.

 

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde, Viva Comunicação Interativa, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador e portal Bahia Econômica. Atualmente, é repórter de Cultura no bahia.ba. Contato: jlucas9915@gmail.com

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