Graduada e mestre em Relações Internacionais, com foco em Geopolítica; tem experiência em análises conjunturais para diversos institutos de pesquisa da PUC MINAS, Universidade Federal de Minas Gerais e Universidade de Groningen, na Holanda; já trabalhou na pesquisa e redação de clippings e notícias para a base de dados CoPeSe, parceria com o programa de Voluntariado das Nações Unidas.
Publicado em 26/07/2025 às 21h18.
Preconceito e exclusão: o cerco de Trump sobre atletas transgênero
Os impactos da mais recente decisão estadunidense no xadrez geopolítico
Júlia Cezana

De maneira discreta, na última segunda-feira (21) o Comitê Olímpico e Paralímpico dos EUA (USOPC, sigla em ingles) alterou sua política para proibir a participação de mulheres transgênero em categorias femininas dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Atualmente o USOPC supervisiona cerca de 50 entidades nacionais de governança esportiva e confirmou a política supracitada em uma carta enviada a todas as entidades nacionais que regem os mais variados esportes, dizendo que elas têm “obrigação de cumprir” a ordem executiva emitida pelo presidente Donald Trump. A ordem executiva, assinada por Trump, prevê punições como corte de verbas federais para quem descumprir as diretrizes estabelecidas.
Ainda, Trump declarou que quer que o Comitê Olímpico Internacional (COI) mude tudo “relacionado a esse assunto absolutamente ridículo” e acrescentou que não permitirá a participação de atletas trans nos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 2028. Apesar de esse assunto não ser competência do governo estadunidense (e sim do COI), tal postura do governo parece fazer parte de uma estratégia maior de pressão sob o Comitê Olímpico Internacional. Aqui é importante frisar que os Jogos Olímpicos são mais do que apenas um palco para esportes, funcionam como um palco global para a diplomacia, a identidade nacional e a transmissão de mensagens políticas. Declarações como a do presidente estadunidense representam mais um desafio para instituições internacionais como o COI.
Ainda, quando uma figura como Trump se posiciona sobre as Olimpíadas, ele envia ao mundo determinados valores morais e políticos, que podem influenciar a opinião pública sobre gênero e identidade. Aqui, é importante frisar que, na política, ações, falas públicas, declarações e intenções de ação importam tanto ou até às vezes mais do que ações concretas. No grande tabuleiro da geopolítica mundial, é importante olhar para a óptica das coisas e para quais peças estão sendo colocados em cheque. E é preocupante ver que um grupo já marginalizado que lutou e ainda luta para a garantia de direitos básicos e ainda precisa de batalhar muito para ocupar espaços públicos, vem sendo cada vez mais alvo de políticas e falas discriminatórias.
A posição de Trump em relação a atletas transgênero faz parte de uma guerra cultural mais ampla nos Estados Unidos. Seu discurso enquadra a inclusão de pessoas trans como uma ameaça à “justiça” e aos “direitos das mulheres”, e ressoa com líderes populistas e de direita em todo o mundo que também promovem agendas anti-LGBTQIAPN+. Além disso, incentiva a convergência de políticas entre governos conservadores (como ocorre em partes da Europa Oriental e da América Latina). Portanto, não se trata apenas de uma questão interna dos EUA: esse discurso ultrapassa fronteiras e tem potencial de influenciar (futuras) políticas, especialmente por vir de um dos grandes atores no cenário internacional.Além disso, é importante frisar que políticas como as propostas por Donald Trump, colocam ainda mais pressão sobre instituições internacionais como o COI estão sendo cada vez mais cobrados por vários players.
Com relação ao comitê estadunidense, a instituição afirma que sua principal missão é capacitar os atletas estadunidenses a alcançar uma excelência competitiva sustentável e saudável. Para garantir o cumprimento dessa missão, põe como principal objetivo garantir a justiça no esporte em todos os níveis, desde atletas de base até os níveis de elite. Ainda, afirma estar empenhado em se tornar uma liderança em Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) no esporte, oferecendo acesso e oportunidades para todos.
Contudo, a realidade não parece corresponder a esse discurso. Políticas como a supracitada parecem demonstrar um interesse de seguir no caminho oposto de diversidade, inclusão e equidade. A título de exemplo, as federações de natação, ciclismo e atletismo já passaram leis que proíbem atletas que passaram pela puberdade masculina de participarem de eventos femininos. O futebol está revisando suas regras de elegibilidade para mulheres e pode estabelecer limites para os níveis de testosterona dos jogadores.
O USOPC também se coloca como uma instituição que toma decisões baseadas na ciência. No entanto, isso também é questionável, já que estudos recentes (publicados no British Journal of Sports Medicine, pelo Canadian Centre for Ethics in Sport e analisados pelo Mount Holyoke News) sugerem que, após uma transição adequada, mulheres trans não mantêm uma vantagem atlética sobre mulheres cisgênero. Apesar da falta de pesquisas extensas e de algumas limitações metodológicas (o que é comum em qualquer pesquisa científica), os resultados dos estudos supracitados apontam para indícios de que, na verdade, a performance de atletas trans em alguns aspectos podem até apresentar desempenho inferior ao de suas contrapartes cisgênero.
Fato é que no xadrez político atual, os direitos LGBTQNIAP+, e mais especificamente os direitos das pessoas trans, estão sendo cada vez mais utilizados como ferramenta política. Enquanto as governos democraticos estão, em sua maioria, defendendo a garantia de direitos à este grupo marginalizado, regimes autoritários ou populistas de direita estão restringindo tais direitos. Os comentários de Trump alimentam essa divisão, transformando o tratamento de atletas transgênero em algo que vai além do esporte, tornando-se um ponto crítico de disputa em direitos humanos no cenário global.
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